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Coluna – Maníaco do controle remoto

Coluna – Maníaco do controle remoto

Uma das causas de aumento do sedentarismo entre os povos é fatalmente o controle remoto. Antes do avanço indiscriminado da tecnologia durante uma só noite, do sofá até o aparelho de televisão, andava-se de 30 a 50 km para mudar de canais. É lógico que o chuvisco da tela também contribuía para que o telespectador se levantasse indo até um canto da parede no quintal, onde uma vara de bambu segurava a antena, que poderia ser; “Pé-de-pinto ou Escama de peixe” e rodar o objeto de um lado para outro, perguntando como estava a imagem, só se livrando da penitência quando uma voz feliz de dentro da casa dizia: “Ta limpinha!”. Além do acumulo de gordura o controle remoto também já provocou diversas intrigas e até divórcio. Mas uma história quero repassar fielmente que é de um rapaz que precisou de tratamento psiquiátrico para se livrar do controle remoto. Como é filho de gente importante e, gente importante vive procurando seu nome no jornal para recortar e mostrar aos parentes e “amigos” ou entrar na justiça para ganhar danos morais. Por precaução o chamarei de “Baneston”, pois além da mania ruim com o controle, adorava uma vitamina de farinha láctea com banana.

– Mamãe cadê meu controle remoto? O seu controle remoto eu não sei, mas o controle da televisão da sala está no seu quarto e o da televisão do quarto está na sua mão! A família sempre tentava se reunir para ver um programa que aprazível a todos, Baneston tinha sua televisão no quarto, mas vinha para a sala. – Pai deixa só ver o que está passando na Globo, ah bom, pêra ai só um tiquinho que vou ver se no SBT está passando o Chaves. – Oh seu retardado vê se deixa a gente assistir o BBB em paz! Gritava a irmã torcendo para Zé Ruela ser eliminado do programa. Baneston se tocava e ia para o seu quarto, o desenho da “Pantera cor de rosa” estava começando, ele mudava para Tom e Gerry, apertava o botão e ouvia o Pastor Evangélico falar o numero da conta para os fieis depositarem em nome de Deus. Ele mudava o canal e vinha um alerta, canal não existente, virava para a TV Cultura, o Saci Pulava na Turma do Pererê, avisaram nas inscrições que logo viria “O Teco-Teco”. Ele mudava o canal novamente e não achava o que queria, apertava o controle mirando a parede, queria fazer um desenho com as luzes que pensava se projetar dali. Nada acontecia, ele virava-se para a televisão e apontava fortemente, vinha outro canal, pessoas falavam e ele não entendia, apertava novamente e nem se lembrava mais onde iniciara sua aventura. Enfiava o controle no bolso e rumava até a sala, à irmã falava palavrões contra o Zé Ruela que conseguiu se salvar da eliminação, o pai não gostava e com um olhar de reprovação conseguia o silêncio, a mãe assistia, mas costurava flores vermelhas com detalhes pretos em volta, não entendia o que se passava na televisão e perguntava ao marido, que respondia vagamente; “Ah mulher dois sentidos não assam milho” ela furava o dedo e levava até a boca como se temesse gritar a dor.  Baneston não era bem-vindo a sala, mas vinha sorrateiro, o Pai esticava as pernas para tirar os únicos espaços que sobravam no sofá entre a filha e a esposa, a irmã olhava com olhos felinos de ataque e escondia o controle entre os seios, à mãe não dizia nada, mas também não queria aquela presença entre eles. Baneston retirava seu controle do bolso, apontava para a televisão, ninguém esboçava dar voz ao disparate, ele mexia com as pilhas e apontava novamente, o canal permanecia o mesmo. A noite veio com  lua cheia e Baneston que não tinha namorada ficou apontando o controle para a grande bola amarela. Por coincidência uma nuvem negra atravessou a frente e o céu se escureceu, na sua cabeça o mundo se acabaria ali, seu controle remoto era obra do demônio, pisou sobre o objeto e o fez em pedaços, aquele da sala foi jogado na  panela quente de gordura. E  portão a fora saiu  invadindo casas e quebrando controles, entrou na farmácia e quebrou o termômetro pensando ser um controle remoto, na funerária destroçou um radio comunicador na mesma confusão. A turma assistia ao jogo no bar, quando ele entrou  vasculhando  em pormenores os cantos visíveis ao olho, o controle não estava. Tomado pela insana causa enfiou a mão sob a camisa e gritou que era assalto, alguns correram, outros se deitaram entregando carteiras e celulares, o dono do comércio ofereceu-lhe o lucro do dia, mas ele queria o controle remoto da televisão. Recebeu, pisou sobre ele e quando viu os cacos espatifados no chão saiu correndo e desapareceu no meio do terror da noite, onde as casas se trancavam e a policia procurava insistentemente pelo maníaco do controle remoto.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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