Inicio » Colunistas » Adilson Cardoso » Coluna – João e Berlinda

Coluna – João e Berlinda

Coluna –  João e Berlinda

Não se falava em outra coisa na cidade, Berlinda conseguiu se casar. O noivo era um tal de João filho de um velho alemão, não que o velho tenha nascido no país do  Nazismo, era apenas uma alcunha. João que freqüentara os bares do bairro do Pombo diuturnamente se reservava após o matrimonio, só saia para trabalhar na oficina de consertos de bicicletas e ajudar a esposa nas compras do supermercado. – Quem diria hein, Berlinda conseguiu se casar e eu aqui “moça velha”! Dizia Mariona filha de Zeca Mamona que aos não sei quantos anos estava à espera do grande amor, o ultimo namorado foi um galego da montagem de som do cantor “Amado Batista” que após horas de amor incandescente no quarto do hotel  prometera  voltar para a troca de  alianças, mas já se passaram cinco e até a data não retornou. As velhas de chales pretos na cabeça saiam bem cedo para a missa e faziam o sinal da cruz ao passar pelo numero 624, casa de Berlinda e o esposo João. – Berlinda conseguiu se casar mesmo com  a sem-vergonhice toda, isto é coisa de belzebu, intervenção de algum pai-de-santo, tambor de baiano batido em encruzilhada! Assim falavam aquelas que sonhavam em casar suas filhas, porém o tempo passava e os homens não chegavam. No dia do aniversário da cidade uma grande festa foi organizada na praça, Bruno e Marrone como  atração principal sorteariam  uma mulher para dançar com eles a canção “Dormi na praça”. Durante todo o dia os salões lotaram, alguns tinha fila de espera anotado em agenda, cabelos e unhas bem feitos e maquiagem de televisão se viu  durante a festa. Os homens solteiros não sabiam em quem se apegar, até pareciam que aquelas mulheres não eram as mesmas que se viam a cada esquina, os casados admiravam suas esposas, tinham ciúmes dos olhares que vinham dos lados, mas também disfarçavam e comiam  as esposas dos amigos com os olhos. Berlinda estava lá, vestida de branco, um vestido de malha curto, calcinha minúscula dividindo a grande bunda, cabelos soltos e uma bolsa preta na cor do sapato de salto alto, atendia o celular e não conversava com as pessoas que lhe dirigia a fala. – Todas estão lindas, mas Berlinda é a mais bela, queria me casar com ela!”disse uma voz no alto falante provocando a rotina do festejo. As beatas colocaram as mãos na boca, os grupinhos de adolescentes cochichavam e sorriam gostando da ousadia, um enorme ti-ti-ti formou-se até outra voz em timbre diferente sair do alto falante; “Berlinda só você me fascina, te desejo muito além do prazer!”e mais comentários surgiram, as redes sociais bombavam “Bafo geral, chifraço ao vivo!”“P.Q. P mais uma MSN a moça ta podendo hein?”Mas cadê o João? Lembrou-se alguém de que aquela figura pecadora linda e desejável era casada com o João, mas onde estaria João? Berlinda fumava um cigarro espetado em um caninho, troço importado que ninguém dali sabia o nome, todavia não tinha cara de preocupação e nem demonstrava afeto ou desafeto contra as vozes que lhe queriam no ar. As velhas que usam os chales  pretos  de manhã para ir as  missas se reuniam ao lado do Padre que esperava à hora do bolo para levar sua fatia, chamaram o delegado que tomava uma lata de cerveja para intervir no assunto, porém nada tinha contra a moça para enquadrá-la, João poderia estar por ai em qualquer lugar ou não estar a fim de participar da festa. Assim concluiu o Delegado deixando aquele grupo para se aproximar de um vereador que entregava preservativos com seu numero já pensando na eleição do próximo ano. Mariona filha de Zeca Mamona   estava pouco se lixando para os acontecimentos que envolviam Berlinda, a sombra azul nos olhos e o decote generoso na blusa de viscose fizeram-na atraente e desejada por um dos montadores de luz da dupla sertaneja, que sem perca de tempo visitou o quarto de hotel do rapaz e após um show de amores na cama aceitou o convite para morar em Recife, mas teria que esperar mais alguns dias para que o pretendente voltasse a cidade. João não apareceu e nem outra voz declarou-se a Berlinda que tomou uma dose de whisque com água de coco pouco antes de ser anunciada como a escolhida para dançar a musica “dormi na praça”. Na madrugada junto aos papéis que o vento soprava no frio, um homem embriagado com roupas de passeio dormia sobre uma mala. Era João filho do alemão, aquele alemão que não precisa repetir que não é do pais provocador da Segunda Guerra Mundial.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

PUBLICIDADE

///////////////////////////

------------------------------------------------------------------------

Se você é a favor de uma imprensa totalmente livre e imparcial, colabore curtindo a nossa página no Facebook e visitando com frequência o site do Jornal Montes Claros


------------------------------------------------------------------------

------------------------------------------------------------------------

Leia Também

VLI abre vagas para programa Jovem Aprendiz em Montes Claros

VLI abre vagas para programa Jovem Aprendiz em Montes Claros

Compartilhar no WhatsApp* Por: Jornal Montes Claros - 8 de dezembro de 2016.VLI abre vagas …


Aviso: nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto, e esperamos que as conversas nos comentários sejam respeituosas e construtivas. O espaço abaixo é destinado para discussões, para debatermos o tema e criticar ideias, não as pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão, de maneira nenhuma, tolerados, e nos damos o direito de excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, calunioso, preconceituoso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem um nome completo e email válido).