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Coluna – Oração a São Francisco

São Francisco, meu queridíssimo São Francisco, o senhor que é de Assis e foi o inventor do presépio no ano de 1223, em Greccio, na Itália, para a Humanidade lembrar sempre do nascimento de Jesus Menino, com todo o respeito e devoção imploro a sua intercessão para, juntamente a nós todos que amamos a Mãe Natureza, pedir a Ele, o verdadeiro Filho de Deus para impedir o fim do “Rio da Integração Nacional”.

Faço isso, hoje, São Francisco, mas já tomei outras atitudes antes e vo-las contarei tim tim por tim tim no decorrer desta oração, faço isso hoje atendendo ao apelo do membro do Conselho da Bacia do Rio São Francisco, Antônio Jackson Borges, que integrou a expedição “Vidas Áridas” idealizada pelo jornalista Délio Pinheiro. Borges disse, em entrevista, bastante assustado com tudo o que viu de degradação do rio: “A nossa única esperança é apelar pra Deus”.

E é neste sentido, São Francisco, porque o rio leva o seu nome, que tomo a liberdade de me dirigir ao senhor em oração. O senhor que é o Patrono Mundial da Ecologia; o senhor que conversava com os animais e eles ficavam de orelhas em pé para ouvir o que os homens e as mulheres não queriam ouvir; o senhor que conversava diretamente com Deus, na pessoa de Jesus Cristo, numa relação de intimidade tamanha que Deus atendia quase ao mesmo tempo os seus pedidos; o senhor que realizou, em nome de Jesus, milagres tanto quanto o próprio Jesus em pessoa realizou – ou mais porque viveu muito mais tempo – interfira neste processo em favor do salvamento do rio que se afoga na lama humana.

Perdoa-nos, oh São Francisco, o senhor que sofreu na própria carne as mazelas da vida humana tudo por amor a Jesus, o senhor conhece bem a raça. Não leve em conta o egoísmo do qual derivam os demais pecados, a hipocrisia, a ganância, o consumismo etc. porque é por causa de tudo isso que o Rio São Francisco agoniza senão morreu. Ainda está vivo porque corre em muitos pontos, mas morreu em decorrência do exacerbado amor ao “deus dinheiro”.

Peça ao Filho, Jesus, para falar ao Pai, que nos envie o Espírito Santo para Ele realizar o milagre da ressurreição do Rio São Francisco, por amor ao seu nome santo, oh São Francisco de Assis.

Como o senhor bem sabe, não foi por falta de avisos que tudo deu no que deu. Desde a década de 70, logo após a realização da primeira Cúpula da Terra, em Estocolmo, São Francisco, vimos alertando a sociedade e as autoridades dos governos, por meio de reportagens publicadas no jornal Estado de Minas e em outros veículos, sobre a situação degradante como o nosso irmão rio era tratado.

Fomos às nascentes do Rio São Francisco, lá em São Roque de Minas, Serra da Canastra, a fim de averiguar denúncias contra o garimpo clandestino que desviava o bendito, poucos quilômetros abaixo. Percorremos um trecho do rio e pudemos constatar com os próprios olhos a quantidade de homens utilizando bombas hidráulicas. Ali, o rio ganhava aspecto de mar, perdera o curso.

Em vários pontos canos de grossos calibres derramavam águas imundas dos dejetos humanos no curso do rio. Irrigantes retiravam descontroladamente as águas sem o menor respeito aos ribeirinhos que do São Francisco viviam e vivem ainda hoje, apesar da sua agonia.

Em Pirapora, onde uma noite dormimos no vapor Benjamim Guimarães pudemos constatar a quantidade de canos cuspindo esgoto bem dentro da cidade, naquele ponto onde os banhistas costumam (será que ainda há água para tanto?) frequentar as duchas em meio às pedras pretas donde se vê a ponte de ferro, marco de Pirapora.

Como se pode depreender, São Francisco, o problema da degradação do rio é antigo. Antes de nós, outros já deviam ter constatado a degradação, e de lá para cá a sociedade e os governos tiveram tempo suficiente para evitar o fim do rio, mas o egoísmo, a ganância, o faz de conta dos governos, a irresponsabilidade, a omissão e a indiferença dos homens e das mulheres mineiras de Minas e do País afogam o rio na lama. Foi uma destruição premeditada, lenta e gradual, tal e qual as torturas vividas por um personagem kafkaniano.

O senhor, São Francisco, que abandonou toda a possibilidade de obter uma vida material farta para se entregar de fato a Jesus. O senhor me desculpe, mas não podia deixar de lhe falar sobre isto: já que os brasileiros acabaram com o rio, sem o menor repeito e consideração, não seria o caso de o senhor fazer alguma coisa, na prática, para não deixar a nossa irresponsabilidade comprometer o seu santo nome, São Francisco?

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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