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Coluna – Montes Claros, no sobrado da Fafil, meio século depois

Coluna – Montes Claros, no sobrado da Fafil, meio século depois

Havia meio século não entrava neste sobrado da Rua Coronel Celestino, 75 – Centro, Montes Claros. Olhou pelo retrovisor da vida e fez as contas de cabeça. A última vez que aqui esteve o governador de Minas era Magalhães Pinto, em 1965.  Recordou-se disto porque no último ano de governo dele foi iniciada a construção do novo prédio da Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, na Avenida Mestra Fininha. Juntamente a alguns colegas de escola pararam o carro do governador na Praça da Matriz para cobrar dele a construção do novo prédio da escola. O governador sorriu, fez com a mão o gesto de positivo.

A construção do sobrado foi iniciada em 1886. Era para servir de moradia e comércio para o coronel José Antônio Versiani (Juca Versiani). De lá pra cá, o sobrado serviu para várias atividades. Atualmente abriga do Museu Regional do Norte de Minas (MRNM), no Corredor Cultural Padre Dudu. Mas, a palavra mágica que abriu a caixinha azul da memória foi o nome Escola Normal Oficial Professor Plínio Ribeiro. Neste momento ouviu os próprios passos e a voz possante dos professores dentro das salas de aula.

Ao subir as escadas de madeira recordou-se dos estalidos estranhos vindos do forro de madeira, até que um dia de manhã desabou parte dele quase em cima da cabeça do professor Pedro Santana. Ou foi de Juvenal? Há controvérsias, mas o desabamento parcial do forro aconteceu durante a aula. Todos saíram da sala correndo e a partir daquele dia se criou a neura: “O sobrado está prestes a desabar”. De fato, necessitava era de uma reforma, como essa reforma que deu a ele vida nova e perene. Ficou muito chique o sobrado das lembranças mil.

Inda bem que foi salvo da sanha urbanística destruidora atuante há muitos anos em Montes Claros. Enquanto se aproximava do sobrado, vindo de Grão Mogol, pôde observar com um vergão de tristeza as casas antigas da Rua Padre Teixeira indo abaixo, quando podiam ser restauradas como foi o hoje conhecido “sobrado da FAFIL”.

Recordou-se da cena da colega que, em plena aula do professor Francolino teve a ingenuidade de perguntar: – Professor: é verdade que se a gente deixar um fio de cabelo dentro d’água durante muito tempo ele pode virar cobra? Austero como era Francolino se limitou a responder: – Faça a experiência.

A classe inteira engoliu o riso, porque naquele tempo “bullying” era só uma palavra da língua inglesa que soa parecido com o nosso bule de café.

Houve alguma mudança na parte interna do sobrado, na divisão das salas. E não podia ser diferente, havendo necessidade de readequá-lo para as funções às quais serviu ao longo do tempo depois da bendita restauração. Mas as nove portas e nove janelas lá estão. Toda a imponência do sobrado foi conservada. Cabe agora cada um contar a sua história, rebuscar sua memória.

Como naquele tempo as mulheres costumavam usar vestidos ou saias, as frestas do soalho tinham o condão de mostrar aos jovens, em plena fase de ebulição hormonal, estrelas multicoloridas. Até que tudo ficou manjado e o céu tornou-se noite eterna à semelhança do breu.

De um momento para o outro, os ruídos de passos no soalho foram se assomando ao ponto de reconhecer no vaivém de estudantes e professores, Dona Yvonne, que acabava de cumprir a sua gloriosa missão e partia para uma das moradas da Casa do Pai. Sentiu isto por meio das lufadas de vento que entravam pelas janelas abertas. Pensou: “O ar condicionado aqui é natural, como sempre”.

Deu de cara com o professor Márcio Aguiar, de Português, e num átimo se recordou do caso que ele contou no primeiro dia de aula. “Vocês nunca mais irão se esquecer disto: um assaltante apontou a arma para um professor de Português e disse: Te mato, passa-me todo dinheiro”.

Ao que o professor, calmamente respondeu ao assaltante: “Mata-me, faça tudo que quiseres, mas nunca empregues um pronome oblíquo no princípio da frase”. De fato, nunca se esquecera deste ensinamento.

Um turbilhão de lembranças perpassou-lhe a cabeça. Lembrou-se do sinal para início das aulas. Recordou as escorregadelas pelo corrimão da escada. Ouviu ecos distantes de quando a moçada esbanjava juventude pisando o surrado soalho de madeira antiga. Soalho pisado e repisado por milhares de pessoas de destaque ao longo do tempo. De gente que, neste instante, acaba de ler este texto e começa a rebuscar as próprias lembranças da vivência neste sobrado eterno.

Por Albero Sena

Alberto Sena
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