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Coluna – Tributo na praça a Dona Selma do Côco

Uma das grandes vontades deste mortal e sem dinheiro aprendiz de escritor era conhecer em pessoa Dona Helena Meireles ou participar de uma palestra na voz de Ariano Suassuna, sonhar não paga e com isso quem deras ao vivo a poesia matuta de Patativa do Assaré, Mas infelizmente todos se foram após cumprir com tamanho esmero suas sinas arteiras nesta terra de sofreres e amares. Durante a solidão provocada pelas ausências destas figuras restava à risada faceira, mulher, moça menina arretada sem frescura, Dona Selma do Côco que cantava a “rola” como se rezasse o credo, ainda balançava a saia e gingava feliz demonstrando vigor e espiritualidade, simples como o bater ligeiro das asas do colibri frente à flor. Mas eis que numa dessas surpresas desembestadas da vida, o jornal anunciou que o Coco estava de luto, morreu também “Sá Selma” e com ela grande parte da cultura Pernambucana. Assim chorava Dizim de Miguel poeta e escrivão de bistunta como o próprio costuma dizer, amargurado sem aceitar conforto pegou sua caixa de couro de bode e sentou-se com os olhos lacrimejando no banco da praça. Quem nunca ouviu falar no nome da “rainha do coco” começava, a saber, pelas batucadas do poeta que cantava repicando com pressa, acabava uma canção e o intenso repertório estava com outra afiada, pessoas se aproximavam, mulheres vinham da feira e desciam as sacolas dos braços para ouvir a cantoria, a batida ritimada e as risadas peculiares que alguns denominavam de “onomatopéias” ele fazia. Mães com os filhos escanchados nas cadeiras encontravam forças para mexer os quadris e dançavam, homens bem vestidos tiravam seus paletós e afrouxavam as gravatas, diziam coisas em sigilo nos celulares e cruzavam os braços, fotos e mais fotos eram registradas com fervor de paparazzi, de repente um sujeito de chapéu torto que parecia conhecer do coco, fã de Jackson do Pandeiro, acompanhou no pandeiro e Dizim sorriu pouco depois um outro “coqueiro” apareceria com um triangulo e o “pau comeu”. Tudo corria bem, Dona Selma do Coco estava no mínimo com um largo sorriso de felicidade olhando lá de cima. Mas alguém dissera certa vez que bêbado é coisa do capeta, aliás, nem o capeta pode com o danado do bêbado. Dizem que o “Pé redondo” quando vê um peste destes cambaleando, esconjura e passa longe. Então os músicos botando pra quebrar cantavam “Manoel” até chegar um par de bêbados, tão estilangados de pinga que as pernas brigavam contra elas mesmas, uma ia para o norte a outra estava a caminho do sul. As vozes pouco saiam, se encrespando com o poeta, pedindo que tocassem uma musica do disco “Amarguras” de Zé Paulo e Mocotó. Dizim e seus batuqueiros não deram ouvidos e continuaram chamar no couro as canções de Dona Selma,

“Há trinta anos passados
Morava em mustardinha
No meio de tanta gente
Não conheceram selminha

Hoje eu moro em olinda
O povo me adotou
Me chamam rainha do côco
O povo é meu amor”.

Mas um dos bêbados com o “feijoeiro virado para a lua” foi um pouco mais longe e tentou arrancar a bolsa de espectador que estava na sua frente, o homem que não tinha paciência nem de cedo até meio dia, virou com uma mão cheia de dedos na orelha do inconveniente, ao tentar se levantar levou um chute nas costelas e só não levou a terceira pancada por que um guarda se aproximou dizendo pare. O amigo do bêbado que também bêbado tratou de aprumar as pernas e se mandar. Mas o mesmo expectador que havia agrediu seu amigo, interceptou-o com a mão fechada prontinho para lhe tirar uma guicha de sangue do nariz, mas para se começar uma briga é preciso motivos, assim o próprio procurou, “Então, você não vai cobrar as porradas que dei no seu amigo?” O bêbado olhou para cima e para o lado, passou um rapa de olho nos braços parrudos do homem que rangia os dentes com sede de murro, e falou timidamente, “Oxenti e eu sou lá amigo de cachaceiro é, Deus me defenda! Por mim que mate o traste no pau!”. E assim caiu a noite e o couro continuou comendo;

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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