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Coluna – O Relógio

“O mais antigo instrumento de marcar as horas
foi o “relógio do sol” que foi inventado pelos
babilônios e tinha um funcionamento simples:
uma haste vertical se projetava do centro de
uma superfície circular, projetando uma sombra
do sol para indicar a hora.”

O relógio está na parede, está no bolso, no pulso, no coração que pulsa, na mente que arde com pavor do tempo. O relógio tic, o relógio tac, o relógio marca à hora de nascer, marca a hora de morrer. Queremos que as horas parem, precisamos que as horas sigam, pare, siga. Relógio doente possessivo. Relógio que não se importa, frio, desalmado, perdido em seus mistérios, relógio gente. Somos guiados pelo relógio, dizia Golda Meir que devemos controlar o tempo e não deixar que o tempo nos controle, mas nossos impulsos primitivos não dão créditos às razões filosóficas, somos guiados pelo relógio. Sem um relógio o cérebro não envia comandos às terminações nervosas e não abrimos o olho, não abrimos a boca, sequer respiramos. O relógio determina a quantidade de horas que se dividem em frações de minutos, segundos, milésimos de segundos as coisas acontecem e os ponteiros se estendem determinando que nossos membros inferiores arrastem o tronco e a cabeça, em determinado tempo o coração fará sua atividade mais complexa, pequena e grande circulação, o coração recebe o sangue, processa, bombeia, o sangue não anda distraído, passa por veias e artérias o relógio marca e o coração não para, o cérebro de olho no relógio, pulmão, rins, fígado, bexiga, o corpo não anda descontraído a toa, o tempo é calculado e os passos são determinados em pequenas batidas que não reverbera como a Matriz, o silêncio do relógio interior determina as expressões provocadas pela musica que vaga pelos tímpanos, a buzina, a placa pare. “O estomago de cada um é como se fosse um relógio” no pulso marca a mesma hora, o dia não é o mesmo a mesmice é a vontade de fazer a mesma coisa de ontem, sobrevivência informa o cérebro guiado pelo relógio, colocar o arroz no prato tem um tempo um feijão tem outro tempo e a carne está frita com cebola amarela, na parede o relógio tem um formato de prato à visão se completa e as horas andam. A salada tem cor de mato, cor de mato verde, mato amarelo e a lata de azeite têm um desenho de frutos de oliva. Azeite é feito de azeitona? Alguém pergunta na mesa ao lado, as horas andam, a boca se enche sem perder tempo mastiga, o relógio no pulso mostra os ponteiros separados, as horas são outras e o tempo lá fora se modifica vem chuva, diz a meteorologia, a moça de cabelos escovados aponta o mapa e anda pelo estúdio, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, cada lugar tem seu clima. A televisão ligada não atrapalha a boca que ainda mastiga, mastiga até que o celular toca no bolso, um nome aparece na luz azul, também mostra as horas e excita a voz que se despede eufórica. O relógio do coração infelizmente o próprio coração não controla, há de encontrar o lugar onde os relógios se desligam, onde se adianta ou atrasa em favor do prazer pensam filósofos, doutores em medicina e direito, pensam pessoas humildes que não sabem que estão na linha dos grandes pensadores que devoraram tratados e escreveram grandes obras, o relógio é um mistério, mas um mistério ofegante que não conseguimos entender se queremos que ele vá ou fique. E se conseguíssemos a realização do maior dos desejos? Comandar o relógio. Dizer ao relógio que vá que fique que volte que volte antes que alguém morra que vá para além das dores momentâneas, pule por cima da dor acelerando o relógio, talvez dissesse o psicólogo. O relógio é como o coelho apressado de “Alice” não se permite um só pedaço de tempo perdido, que sorriem que chorem que voem ou que andem na razão de pisar na terra. Mas tudo dentro do seu tempo. Na hora devida.

“O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas,
soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo,
tudo é tão negro e frio!” (Fernando Pessoa) 

Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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