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Coluna – Confissões

Era um homem introspectivo, às vezes demasiadamente receptivo e brincalhão, caricatura dele mesmo como se entrasse em surto, recebesse alguma entidade extravagante. Bipolar, diziam alguns outros nem se aproximavam, sua vida nem ele mesmo entendia. De batismo fora chamado de Calixto, mas por alcunha vários nomes lhe eram depositados. Trabalhava em uma pequena loja de materiais de construção, dedicado e pontual, mas se queixava da falta de reconhecimento do chefe que não lhe promovera ao cargo de gerente que almejava. Casou-se com Maria das Dores e tivera dois filhos, porém diziam as más línguas que a cunhada Maria do Amparo lhe olhava estranho com jeito de safadeza. Maria das Dores também tinha lá seus segredos, mas fingia não ouvir as insinuações sobre a irmã e cuidava da casa, lavava as roupas do marido investigando cada dobra em busca de vestígios de traição, especulava o cheiro de algum perfume diferente e guardava tudo para si, queria dar o bote feito cobra matadeira, uma só picada se realmente houvesse o adultério, pois precisava de um álibi para suas histórias secretas. Certo dia Maria do Amparo confessara ao padre que nutria sonhos românticos por um homem comprometido, que às vezes à noite algo quente lhe eriçava os pelos do corpo e o pecado vinha a sua cabeça, o padre já desconfiava, uma vez que a igreja é sempre um canto liberado para contar fofocas e se confessar. Contara ainda mais, que pensava em abdicar de tudo para viver a paixão, mas tinha medo do pecado e da reação do marido, não queria morrer e passar sua eternidade queimando nos caldeirões do diabo. Como sempre o padre pedira apenas que rezasse Padres Nossos e algumas Ave Marias e evitasse sonhar com o que não se deve. Maria das Dores viera logo depois, não se sabe por coincidência ou por conveniência, o padre preparou-se para ouvir tudo aquilo que sabia que a irmão diria. Porém não se contivera de tremores quando aquela distinta senhora que era exemplo de candura e respeito, dissera as mesmas coisas da irmã, estava loucamente apaixonada por um homem casado, criatura que lhe arrancava os sonos e provocava sonhos pecadores que lhe arrepiava a pele, mas não queria morrer e ir para os infernos. O padre indo contra sua vontade imediata de excomungar aquela adultera dissera em quase afronta que rezasse e tomasse vergonha na cara. E ali ficou matutando, olhou pela greta do confessório o amplo salão da igreja e aquela mulher saindo, fazendo reverencias para os santos que se encontravam nas paredes. Ao iniciar os degraus da porta de saída parara por instantes como se procurasse os olhos do padre que a observava da pequena abertura. O dia era de sábado, o bipolar Calixto se encontrava na sua face caricata de brincalhão, contando piadas sem graça e assobiando para as moças, Geraldo Ceboleiro era o marido da sua cunhada Maria do Amparo, aquela mesma que habitava as desconfianças de Maria das Dores. Geraldo estava cabisbaixo e com uma duvida imensa lhe pesando a cabeça, de dentro de casa ao avistar o concunhado a passar, mandara que um menino lhe entregasse uma cruz desenhada em papel de caderno. Calixto que estava na sua face de bom moço, colocara o papel dobrado no bolso e nada dissera. Em casa tomou banho, vestira-se de camisa vermelha e a calça preta, já usando do olhar sisudo e introspectivo, a mulher que conhecia muito bem aquele jeito de mudar radicalmente a personalidade aproveitara para sair a rua e observar se a irmã o espreitava, voltou-se e foi fumar escondido no banheiro, rezando para que nada fosse descoberto. Calixto entrou sem  pedir licença pela porta do confessório e sentou-se com cara de inimigo, o padre conhecedor de todas as histórias esperou que ele falasse, mas nada fora dito, passaram-se um quarto de hora e nada de qualquer som sair daquela boca que deveria estar se confessando. Até que outro quarto de hora depois o papel fora entregue ao padre, que lívido feito marfim tentava recapitular quem lhe entregara a confissão das mulheres. Era o símbolo da morte, pensava o Padre enquanto corria desesperado porta a fora, Calixto então abandonara seu estado introspectivo caindo em gargalhadas, sem entender nada do que fazia o padre.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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