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Coluna – Mas era ele o quê?

E depois de passar dos 70 o velho Benevides sentou-se no banco da praça para fazer um balanço da vida. O ventre abastado da mãe de onde saira quase vinte crias, a pouca condição do pai sobrevivendo através de trabalhos duros, o álcool como fuga e a prostituição das irmãs Carolina e Coralina, a segunda até que tentara se fazer poeta como aquela dos livros, mas sua boca pretendia outros movimentos e a rima não rimou, ia e vinha com o mesmo gosto. Bem que Benevides ainda garoto, forte e ágil como a ventania poderia ter jogado profissionalmente no Clube Atlético Mineiro, no Cruzeiro Esporte Clube no Clube de Regatas Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Internacional ou quem sabe até no modesto SEI LÁ QUEM de onde o “Judas perdeu as botas”. Mas infelizmente nunca tivera o menor talento para o esporte, na escola lhe alcunhavam de “perna” na hora da partida a turma se dividia, dois times se formavam, e o nome de “perna” aparecia em destaque, “Eu não quero perna!” dizia um dos organizadores de equipe, “eu prefiro jogar faltando que escolher o perna!” dizia o outro. A professora fazia semblante bravo e exigia a entrada dele. Era atendida, mas ninguém lhe passava a bola, porém quando a bola saia para a lateral era o “perna” quem devia buscar. “pega a bola Perna, mas não cobre o lateral!” A primeira namorada não dera certo, chifres e pé na bunda marcaram o desfecho melancólico. Nunca conseguiu entender o porquê de 04 porquês. No trabalho sempre ganhava menos que todos os outros, mesmo sendo ele o responsável pela faxina do galpão inteiro, trabalhar 12 horas por dia enquanto a maioria fazia 06 e 08 horas. Sua primeira vez no sexo, seria com uma loura de quase 02 metros de alturas, quadris largos e peitos fartos, aceitara pagar o quanto fora solicitado, porém dentro do quarto ela e ele eram iguais na genitália, isto ele prefere saltar para não sofrer de dores pretéritas. Um dia depois de um porre, olhara-se no espelho e decidira que seria uma nova pessoa, um andarilho hippie, despediu-se da esposa que lhe dera um filho caolho de um leiturista da Cemig e colocara a bolsa nas costas, andara 05 kilometros e decidira que ser hippie é cansativo e não trazia nenhuma novidade para sua insossa existência. Ao voltar para casa a mulher já estava amasiada com um entregador de gás. Benevides então decidiu que ser hippie exigia paciência e amor a cultura das coisas imateriais, amor aquilo que geralmente é desprezado pela maioria das pessoas, que além de tudo deveria ter uma marca, parecer um cara diferente. Pegou então um hidrocor e na intenção de fazer tatuagens estribadas fizera garatujas de monstros e casinhas fora de esquadro. Ao perceber que era sempre motivo de chacota no meio hippie abandonara tudo inclusive a bolsa que levava as roupas e foi pedir guarida na igreja, mas enquanto aguardava na porta a chegada da pessoa responsável, fora surpreendido por um bandido que saia de dentro da sacristia com o dinheiro da caixinha, na intenção de ajudar saira correndo atrás do homem e a policia acionada conseguira prendê-lo e associá-lo ao crime. Depois de 02 anos de cadeia injusta saira e nada mais contaria sobre sua trajetória, até o momento em que sentando naquele banco decidiu por dar fim a sua vida, olhava a velocidade dos carros naquela rua e planejava como se atiraria na frente daquele que fosse mais letal, não desejava que sobrasse um só osso inteiro no seu corpo. Decidido, fez um sinal da cruz e olhou para o céu dizendo para o Criador que daqui a pouco se falariam pessoalmente. Porém antes que pudesse precipitar para seu ato final, uma senhora de muletas em punho acompanhada por uma equipe de pessoas trajando branco, provavelmente profissionais de saúde apontou para ele que se assustou e aguardou mais uma desgraça, talvez a ultima, já que a sorte nunca lhe servira com o bem. Mas ela apontou e disse chorando, que havia sonhando que era ele, era ele.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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