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Coluna – O que fizeram com o estádio João Rabello

Quando pai morreu, em 15 de janeiro de 1961, eu tinha 12 anos. Recordo-me bem. Mas não é da morte de pai que pretendo tratar aqui. Mas de pai vivo.

Coluna - O que fizeram com o estádio João Rabello
Coluna – O que fizeram com o estádio João Rabello

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Então, vou reiniciar o texto com outro começo: quando pai estava conosco, era ele o meu melhor amigo. Gostava de sair de mão dada a ele para ir à feira, para ir a pé a fazenda Aliança, do sr. Indalício, e para ir ver o Ateneu jogar, no estádio João Rebello.

É justamente do Ateneu que pretendo falar. Era torcedor do time porque pai me levava com ele para assistir aos jogos. Recordo-me como se tudo estivesse acontecendo agora, quando pai me levou pra assistir ao jogo do Ateneu contra o time do América, do Rio de Janeiro.

Naquela época, década de 50, o futebol montesclarino era aguerrido. Dum lado tinha o Casimiro de Abreu e do outro o Ateneu. Tinha o Ferroviário também, mas Ateneu e Casimiro eram o clássico daqueles anos. Clássico que o copidesque de O Jornal de Montes Claros, Lazinho Pimenta, apelidaria anos mais tarde, de “clássico come fogo”.

Mas é do jogo Ateneu versus América carioca que pretendo tratar. Logo ao correr da notícia do jogo pela cidade, assim que o time carioca chegou, o goleirão Pompeia desafiou os atacantes do Ateneu. Prometia prêmio pra quem marcasse gol nele.

Putz… Foi um senhor desafio este. Os jogadores treinaram bastante a fim de fazer o goleirão quietar o facho, conforme expressão em voga na época. Recordo-me, fui com pai, de mão dada, para não me perder em meio à multidão. O coração batia no peito igualzim coração de passarim. “Quero ver quem vai marcar gol no goleirão”, fiquei pensando com os meus botões – naquela época, toda camisa tinha botões.

Não me recordo mais de quanto foi o placar. Lá do escaninho da memória, o mais profundo deles, me vem alguma lembrança. O jogo terminara empatado. Mas o mais quente da partida foi a defesa de um pênalti por parte de Pompeia.

Vou contar como foi. O atacante – não sei se Manoelzinho ou Manoelito – foi derrubado dentro da grande área e o juiz não titubeou, marcou pênalti, para alegria de Pompeia que, assim, podia encarar o desafio feito. Pênalti a gente sabe, é meio gol. Claro que se pode perder feio um pênalti.

Há jogadores que perdem sem querer e há os que perdem querendo, só para chatear o técnico, como fez aquele ex-atacante do Cruzeiro que confessou ter perdido um pênalti quando jogava num time paulista, só pra sacanear o técnico. Coisa feia.

Também não me recordo mais quem foi escalado pra bater o pênalti. Mas foi uma sensação danada. Olhei para pai e vi no rosto dele que ele também estava sentindo a mesma emoção. O Ateneu tinha a chance de superar o desafio do goleirão e só faltou mesmo uma música de sensação pra fazer o coração saltar pela garganta.

O atacante já estava a postos. Pegou a bola com as duas mãos e ajeitou-a na marca do pênalti. Olhou pra Pompeia no meio do gol com os braços parecendo asas de condor abertas. O atacante caminhou para a bola depois do apito do juiz e chutou-a a meia altura. Sabe o que Pompeia fez? Segurou a bola com a mão direita. Uma só mão. A bola encaixou-se na mão dele. Parecia ter cola nela. Foi aquela tristeza. O goleirão tinha mãos de gato.

Lembrei-me de tudo isso provocado pela foto da entrada do estádio chamado João Rebello toda tomada por mato. Se do lado de fora está assim, faça ideia do lado de dentro. E fico, aqui, em Grão Mogol sem entender o porquê de a cidade deixar um estádio importante como esse se perder assim no tempo, carcomido pelas intempéries.

Tantos foram os clássicos ali disputados. Tantos foram os craques ali revelados, Manoelzinho, João Batista, Manoelito, Jomar. Sobre Manoelito sempre se contou, ele jogara ao lado de Pelé, no time santista. Era tão craque como o Rei do futebol, diziam as boas línguas. E porque era bom de bola, queria ganhar o mesmo que Pelé. Aí não deu né? Nem tico nem taco, Manoelito, com seu tom fino de voz, teve de ir cantar noutro terreiro, quer dizer, jogar noutro time.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
Alberto Sena

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