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Coluna – Frango, quiabo e sangue

Eu e minha mulher éramos namorados ainda, procurando nos livrar dos olhares languidos de gente com fala solta. Resolvemos ir longe, além daqueles locais costumeiramente freqüentados por “gentalhas” se Quico me permite o uso da expressão, passamos por placas que indicavam quilômetros, e sentimos o cheiro de relva molhada com montanhas que surgiam e passavam como flashes no retrovisor. Chegamos quem nos olhava era apenas com olho de estranho tentando reparar se éramos mesmo forasteiros ou roedores de pequi das redondezas, sentamos no barzinho e a tarde caia, fazíamos planos e viramos copos com gula, o amor aumentava enquanto uma musica surgia leve em algum canto distante. Estava tudo perfeito, juras de amor e num momento sádico lembramos-nos do dia anterior quando mataram alguém por motivo de drogas, dizia o jornal. Mas estávamos longe, lugar pequeno, carroças ainda tinham lugar nas ruas, bicicletas e cavalos soltos, um clima de paz, até pensamos em dormir por ali. Um cardápio sobre a mesa tinha frango e quiabo, angu e pimenta verde, farofa se quisesse, paçoca de carne de sol, comida catrumana, baianos mineiros, a lua surgia. Com ela dois homens numa moto, gosto de desenhar e observo as pessoas, o piloto tinha cabelos curtos e arabescos acima das orelhas, uma arte do cabeleireiro, o carona era balofo, mastigava chicletes e cheirava sabonete lux, percebi pela proximidade que passaram da gente. Estávamos na mesa 08 eles ficaram na 15 em diagonal o balofo ficou de frente comigo, conversavam, olhavam no relógio e eu pedi uma caipivodka, minha namorada pediu um campari, bebemos um pouco mais e nos beijamos olhando para o escuro do fechar dos olhos. Os dois estavam lá quando voltei do meu êxtase, o piloto havia se virado, olhava em nossa direção, porém além de nós em mesas mais distantes tinham três homens com músculos a mostra, sem camisas mesmo com a placa proibindo, bebiam e fumavam com sede. O piloto se virou e continuou a falar com o balofo carona que olhava para a outra mesa através de nós, tomei a vodka sem perceber entrei numa espécie de transe alcoólico, surgiram poesias e muita vontade de pintar uma bucólica tela olhando para a imensidão que se perdia na noite com o descer da penumbra. O garçom que nos servia informou que o frango estava pronto, indicou uma mesa no interior do bar para jantarmos, ainda resisti querendo o ar livre de fora, mas um vento ruidoso soprou na copa de uma arvore apinhada de pássaros em algazarra. Um mau presságio empurrou-nos para a indicação do garçom. Foram pouco mais de vinte passos contados de onde estávamos até a mesa arrumada, sentamos e saboreamos com o olfato aquele frango caipira tão quisto por nós dois. Segurei as mãos dela e ouvi o primeiro tiro, um grito de pavor acompanhou o segundo tiro e pessoas desesperadas adentraram em choque, alguns trombaram em nós e arrastou o forro levando junto nosso frango, alguém pediu por Deus, gritaram palavrões e mais tiros, deitamos todos no chão. Mais um tiro e um ronco violento de moto se ouviu na imensidão. Só conseguimos sair vinte minutos depois quando a policia chegou com o atraso do SAMU constatando três mortes. Procuraram por testemunhas, fizeram anotações e fotos, o cheiro de sangue parecia estar saindo de dentro de mim, meus olhos não paravam de enxergar aqueles robustos farristas desrespeitando a placa e virando seus copos com sede. Não sei se foi o piloto ou o carona balofo quem efetuou os disparos, ou se os dois fizeram em consonância. Só tenho certeza de que jamais esquecerei este dia.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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