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Coluna – Montes Claros: No jogo de perde e ganha há 158 anos

Recordo-me não como se estivesse acontecendo agora porque vejo tudo semioculto por tênue cortina, mas tenho lembrança de quando Montes Claros comemorou 100 anos. À época o menino tinha sete anos. Estava no início do “1º ano primário”, no Grupo Escolar Gonçalves Chaves. A família morava na Rua São Francisco, quase esquina de Rua Corrêa Machado.

Montes Claros era cidade sossegada à semelhança do que é hoje Grão Mogol. As ruas tinham trânsito incipiente de carros. Todo dia ouvíamos canto das rodas de carro de boi. Ouvíamos os reclames do vaqueiro condutor do carro puxado por quatro, seis ou mais juntas de boi. A vara comprida com prego pontiagudo na extremidade, o ferrão, ele a usava para despertar o boi sonso. “Ôaaa… Vemcá Fedegoso”, dizia um entre muitos nomes.

O pão nosso de todo dia era entregue em domicílio. Vinha de bicicleta. O verdureiro e o vendedor de frutas passavam todo dia na rua e o leiteiro montado a cavalo também. Com dois latões de leite dos lados do lombo do animal, o leiteiro gritava: “Olha o leeeiiiteeeirooo”. As donas de casa saíam à porta e o leiteiro enfiava uma lata de um litro dentro dos latões.

Em carne e osso, espichando o pescoço pra ver as encenações folclóricas no Estádio João Rebello, em pleno ano de 1957, no auge dos atrativos que à época oferecia, ali estava o menino vendo disputa de argola ou aliança. Era mais ou menos o seguinte: em determinado ponto do gramado do estádio havia uma aliança presa num barbante pendurado numa haste. O cavaleiro vinha a galope com um lança e aquele que conseguisse arrancar a aliança ganhava prêmio.

Lembro-me de o estádio cheio, tanto nas arquibancadas como na parte de baixo, ao redor do gramado. Nós, meus pais e irmãos, ficamos mais ou menos no meio da lateral do gramado, no lado contrário as arquibancadas. Alguma coisa me incomodava ali, mas não me recordo o quê. Talvez, o fato de ser menino e como era muita gente, não respeitaram o direito dele à visão do que se passava no campo. Mas ainda agora ouço o tropel de cavaleiros catando aliança na ponta da lança.

Passaram-se, portanto, 58 anos do Centenário de Montes Claros. Ridículo seria querer comparar a cidade de então com a metrópole de hoje. Evidentemente, desde aquela época a vocação de Montes Claros era essa mesma consumada mais de meio século depois dos vaticínios. Isso significa que houve tempo suficiente para as administrações públicas adequarem a cidade de modo a assegurar o bem-estar da população. Não é verdade?

No entanto, todos fizeram como se dizia em textos de antigamente, “ouvidos moucos” e chegamos ao gigantismo sem infraestrutura capaz de garantir qualidade de vida para a população. As ruas nasceram estreitas e estreitas se proliferam e com isso os problemas socioeconômicos agravados com a passagem da BR 251, que trouxe toda sorte de gente e de problemas para Montes Claros, e um dos principais é a violência promovida pelo tráfico de drogas.

A cidade completa 158 anos. A história do seu surgimento todo montesclarino sabe. Foi a partir duma fazenda fundada em abril de 1707, pelo então integrante da bandeira de Fernão Dias Paes Leme, Antônio Gonçalves Figueira. Ele iniciou uma fazenda de gado e a iniciativa prosperou e virou Vila de Montes Claros de Formiga, em outubro de 1831. Em julho de 1857, a vila foi elevada à cidade de Montes Claros.

A planura envolta pelos montes claros determinou a sua vocação de cidade polo. E polo continua sendo, agora vestida com vestes várias, multicoloridas. Mas continua vovó e mora no meu coração, porque entre tantas alegrias vividas, nunca encontrei por onde andei lugar de céu mais maravilhoso. De dia, é a luz sertaneja. E à noite o espetáculo do Luar do Sertão.

Apesar dos percalços, oh Montes Claros, a senhora é bela na feiura porque assim quiseram e assim parece ainda querer hoje os homens e as mulheres. Cidade bela aos olhos do coração porque é a terra onde nasci. E se em alguma ocasião ponho o dedo nas mazelas é porque a quero, muito, mas aí viver não dá mais. Se a minha cidade soube ganhar em fama o mundo na rudeza das décadas, perdeu em sossego, segurança pública e qualidade de vida.

Mais, muito mais Montes Claros perdeu. Perdeu os quintais. Perdeu o canto e o encanto dos passarinhos.

Por Alberto Sena  

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