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Coluna – O poder do apito do trem

Fui ler a postagem do JORNAL MONTES CLAROS sobre a intenção da Prefeitura de Montes Claros abrir “a partir de agosto próximo o processo licitatório para converter o galpão da antiga Rede Ferroviária em espaço cultural”  e um turbilhão de lembranças perpassou-me a cachimônia, coisas de mais de meio século.

Montes Claros – Prefeitura irá transformar antigo galpão da FCA em Centro Cultural
Montes Claros – Prefeitura irá transformar antigo galpão da FCA em Centro Cultural

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Recordei das inúmeras, sim, inúmeras porque foram tantas quantas são as estrelas que os olhos abarcam em noite de Lua Cheia às vezes em que por ali passei durante o tempo vivido intensamente em Montes Claros, ciente da certeza de que foram dias felizes.

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Quantas vezes por ali passei levado pelos arroubos da adolescência e numa época romântica, quando nem tudo era permitido e os namoros eram em casa, às vezes diante da mãe ou de “uma vela”. Mas eram estimulantes os flertes, às vezes redundavam em encontros fortuitos.

Quantas vezes eu passei por ali? Passei e vi o movimento dos operários ao retirar ou pôr fardos de algodão, que, numa época gloriosa, fora batizado de “ouro branco” e fez a fortuna de muita gente. Uma delas, a do empresário Luiz de Paula Ferreira, poeta, escritor, cronista, que vive no meio de nós, porém refugiado em si mesmo.

Em período mais recuado ainda, e de certo modo arriscado, ou pelo menos havia esse temor a envolver a ousadia, em meio a amigos, subia na calçada do galpão para espiar lá dentro. Homens fortes e sem camisa iam e vinham com ou sem fardos. Fardos amontoados até o teto. No ar flutuavam fuligens de algodão.

Quantas vezes por ali passei indo para o campo do Ferroviário onde jogava futebol e pelo caminho via as máquinas da Central do Brasil num pavilhão enorme fazendo manobras. Naquela época, viajar de trem era a coisa mais agradável do mundo. Debruçar na janela e ver as paisagens, ver o mato passar em velocidade. Ouvir o ruído característico das rodas do trem sobre os trilhos, ferro sobre ferro a arrancar faíscas.

E como em matéria de lembranças, uma puxa a outra, me vejo no presente tentando conter o riso devido à lembrança da piada pronta contada pelo amigo Geraldo Fróis, daqui de Grão Mogol, sobre a primeira vez em que ele viajou de trem, quando era puxado por Maria Fumaça.

Fróis menino de uns sete anos de idade. Vestia a melhor roupa que possuía, e juntamente a parentes chegou à estação. Estava se achando o rei da cocada preta e logo se encaminhou para a plataforma a fim de espiar a chegada da máquina, correndo o risco de cair lá embaixo.

Ele viu a máquina chegando cuspindo fumaça por todos os canos e sentiu uma alegria enorme, ia contar tudo depois aos amigos e certamente muitos ficariam com inveja dele diante de tamanha ousadia de ficar na beirada da plataforma. O trem vinha e o maquinista deve ter visto Fróis muito na beirada da plataforma, então acionou o apito.

Quem conhece o apito de máquina Maria Fumaça sabe, é estridente. E foi tão estridente, como conta Fróis, que o menino deve estar correndo até hoje com medo. Ele viu um monstro e saiu da estação num estirão, desceu a Avenida Francisco Sá e só foi alcançado na porta da Catedral. Risos.

Trem quando apita, o apito parece ecoar na alma. Peguei um pedacinho do fim da máquina Maria Fumaça. Em seguida veio à máquina a óleo, cujo apito parecia mais com o de navio ao sair ou chegar ao porto. O amigo Marcelo Walmor acha que transformar o galpão em espaço cultural poderá facilitar “a permanência dos trilhos em pleno centro da cidade”.

Acho louvável também a iniciativa, mas ouso ir um pouco além: o ideal é voltar com o trem. Naquela época era possível sair de Salvador, de trem passando por Montes Claros até Belo Horizonte e de Vera Cruz chegar ao Rio de Janeiro. O trem continua sendo importante meio de transporte. Só o governo brasileiro não enxerga isso.

Implantar uma estrada de ferro moderna, de modo a transportar carga e passageiros, como foi no passado ainda vivo nas lembranças de gerações. Um trem veloz. As sugestões estão em todos os países que levam a sério o transporte ferroviário.

Transporte que o presidente estradeiro Juscelino Kubitschek desestimulou e ainda hoje certos políticos com interesses no sistema rodoviário insistem em desestimular. Mesmo diante do caos do trânsito nas rodovias brasileiras.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
Alberto Sena

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