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Coluna – Herdeiros malditos

E a mãe não cansava de repetir, aquelas duas criaturas expurgadas de suas entranhas eram sem duvidas as mais abomináveis obras que qualquer ser poderia ofertar ao mundo. O que um tinha de ruim o outro tinha de pior, para não deixar dúvidas do que a genitora sempre dizia o pai vegetava sobre uma cadeira de rodas vitima de empurrão de um dos endemoniados quando tinha apenas sete anos de idade, subiram na laje para soltarem pipas, o pai sorridente mostrava aos vizinhos que estava presente naqueles momentos dos filhos, mas bastou se descuidar para ser empurrado lá de cima, os dois soltavam gargalhadas enquanto o pai pedia por socorro com todos os ossos quebrados. A irmã era seguidamente vigiada pelos olhos famintos na intimidade do seu quarto, o banheiro tinha câmeras instaladas por eles, neste contexto a própria mãe já tinha vídeos tomando banho nua na internet. Quando mais velhos o medo de uma monstruosidade maior se apossara da casa, já haviam cumprido medidas sócio-educativas durante o tempo máximo dos códigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, mas saíram pior, por serem gêmeos univitelinos suas ações eram sempre as mesmas, vestiam as mesmas roupas e andavam nos mesmos passos, ao completarem maioridade começaram estudar o “Men Kapft” livro proibido dos Nazistas, escrito por Hitler na cadeia, tinham planos para dominar o mundo, mas por enquanto vendiam drogas na casa e começaram ser alvos de traficantes rivais e da policia. Certo dia numa ação frustrada policiais civis tentaram saltar o muro e foram recebidos à bala, morreram quatro, no dia seguinte o dobro do contingente viera em vingança e mataram o velho paralitico em represália. A mãe não poderia fugir, tornara-se refém dos próprios filhos que abusavam sexualmente dela quando se sentiam encurralados, a irmã estava sumida há dois anos e nem para a melhor amiga deixara endereço, estava jurada de morte. A televisão noticiava os crimes dos irmãos endemoniados, mostrava a casa estourada pela policia e a fuga dos dois quando provocou à morte do próprio pai, a mãe ficava em silencio por temor. À noite eles saíram de um esconderijo no subsolo da casa, fétidos por rastejarem no esgoto comemoravam mais uma vitória sobre a lei, tomaram banho e obrigaram à mãe servi-los incestuosamente, cães latiam lá fora e nem o grampo nos telefones oferecia pista, eles continuavam ali. Naquela noite enquanto chovia os olhos da mãe também se inundara copiosamente, se lembrava de que “aquelas coisas” que atormentavam o mundo foram planejadas serenamente por ela e o marido, se casaram jovens, mas se prometeram trabalhar um pouco mais para comprar a casa no tamanho que sonhavam com espaços para os filhos. Assim fizeram por longos anos, até que sentados um dia na varanda onde o cheiro do sangue dele continuava na memória, decidiram que era a hora e com amor exalando pelos poros fecundaram os gêmeos, nos primeiros dias ficava ao lado dela acariciando seu rosto e sentindo o odor angelical contando sonhos de vencer para os dois. Ela chorava, a chuva caia com estrondos de trovões, raios clareavam intermitentes como se quisesse iluminar além das sombras projetadas pelas casas, as lembranças primaveris sumiram num repente e seu corpo trêmulo de ódio virou-se para os dois filhos que conversavam bebendo tranquilos no sofá, ela, escrava vilipendiada não existia na linha da sordidez daqueles olhos e ouvia apenas vozes de comando para suas vontades. Sua cabeça adquiriu um tamanho incomum e seu rosto parecia uma bolha de lágrimas com a leveza de um balão, sentiu dentro do peito o coração diluir-se e subir feito jato de água quente escorrendo pelos olhos, assim foi andando devagar, como se estivesse soprada pelo vento de fora que às vezes perfurava as paredes, ela andou até o quarto e abriu lentamente à gaveta da velha cômoda do marido, o revolver 38 estava carregado e sua memória revisitara aquele mês de julho das férias na fazenda do Tio, o marido segurando levemente a sua mão e apontando como mirar o alvo, nos primeiros tiros a mãos se soltava da direção e a bala saia sem rumo, até que fora se acertando e em outra ocasião disputava com ele a melhor pontaria, tornara-se a “Mulher do gatilho de ouro” carinhosamente alcunhada pelo tio que não se cansava de elogiar aquela que caçava patos voando a mais de 50 metros de altura. Enrolado no interior dos braços cruzados sob uma blusa de lã acomodara o revolver, ouvira gritos atrevidos ordenando que fizesse com as palavras de adjetivos ruins costumeiramente oferecidas a ela, viram pela ultima vez o movimento daquelas mãos trêmulas tocarem o apagador e de lá enviar-lhes duas bolas de fogo da boca daquele cano, depois foram mais, até não sobrar nenhuma bala no tambor e nenhum rancor no peito. Ligara as luzes novamente olhando com carinho para aqueles olhos que permaneceram abertos, as faces tinham traços marcantes do marido, os olhos verdes herdaram dela. O sangue que escorria dos corpos foram descendo e riscando o chão de cerâmica, aquele risco vermelho que lembrava a época de escola onde ela e as colegas faziam amarelinhas na hora do recreio.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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