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Coluna – O cheiro das notas

Assentou-se nos últimos lugares do ônibus, de cabeça baixa para não ser reconhecido observava o celular de ultima geração surrupiado de uma das vitimas, dentro da bolsa notas de cem reais e algumas roupas ainda etiquetadas. A cada parada o trocador lhe passava um olho de desconfiança, e dava aquela batida rotineira com uma moeda no ferro da cadeira, o ônibus seguia. O aspecto da cidade ia mudando, as casas tomavam formas diferentes e a poeira surgia embaçando a vista, o motorista acostumado ao caminho assoviava olhando o relógio, pelo espelho percebia os cochilos do companheiro que dançava preso na cansativa cadeira. Dois pontos separavam aqueles homens do fim de uma jornada que se iniciou na madrugada fria, gente sem paciência e eles pagando pelos pecados do mundo durante a imensidão do dia. Numa estreita virada, um casal esperava no meio da rua ela dava sinais de parar e ele apontava um revolver para o vidro que pouco protegia o corpanzil do condutor, em frações de segundos lhe passara pela cabeça uma investida arriscada sobre aquelas pessoas, mas um tiro dali seria mortal, havia possibilidades de ser uma arma de brinquedo, como já houvera em outras ocasiões. A preferência foi para a vida e lentamente o ônibus parou em frente ao homem estacionado em posição de ataque, seus olhos foram invadidos pela luz dos faróis e devolveu um vermelho sangue, algo assustador que exalava medo. Também veio mais dois, a porta se abriu e o motorista arrancado do seu lugar feito um pé de hortaliça em terra adubada, o trocador era o alvo, como sempre é o dono do cofre, quem sempre apanha entregando tudo ou retendo alguma coisa. A mulher estava alterada, fungava transtornada querendo tudo que pudesse levar carteiras e celulares e a fatura das ultimas corridas. Ninguém entendia as ações daquele de arma em punho que continuava de olho vidrado no para brisa apontando o revolver, o motorista sentia muito, mas ali era um por si, enquanto se ocupavam do trocador correu em direção ignorada para longe daquele inferno. O trocador também estava liberado, mas para não sair sem o fogo da participação de mais um assaltado tomou uma tapa nas orelhas de um dos ladrões, ao passar pelo homem que apontava a arma para o vidro do ônibus notou que ele tremia e babava, fez o sinal da cruz e desapareceu. Restava o ultimo passageiro que se levantou imediatamente quando alguém anunciou que incendiariam o coletivo. Desceu com a bolsa na mão se apresentando como bandido tal, de imediato já lhe tomaram o celular e a bolsa que por pouco não lhe arrancam o braço. Temendo pela vida forneceu uma lista de nomes periculosos das imediações, lembrou-se dos presos e disse também quem o protegia. Por infelicidade daquele dia todos os citados por ele eram rivais da eterna luta de facções. A mulher ainda fungava insistentemente quando abriu a bolsa e notou todo aquele dinheiro, notas novas cheirando a droga, convidando ao prazer desmedido, seu grito moveu os últimos neurônios daquele homem estático que subiu a porta do ônibus querendo saber o que acontecia. A presa já estava se despindo quando ela ordenou que atirasse um pedido de clemência, outra ordem unilateral e o eco do tiro fugindo pelas janelas. Outro e mais outro e muitos outros numa algazarra comemorativa de pássaros ao amanhecer. Enquanto desciam um fio de gasolina se soltava do garrafão espalhando pelo interior do ônibus, na porta traseira o sangue coagulava abaixo das escadas e eles cantavam, cantavam impunes celebrando a liberdade e tomada do tesouro de outro pirata, desceram juntos na mesma cantiga, mas antes de acenderem o fogo que ansiava o inflamável, outro fogo surgiu das entranhas do escuro, fogo da boca de ponto quarenta, e outros mais, até que todos estavam mortos. Quatro policiais se dividiram olhando em volta, vendo que estavam sozinhos baixaram as armas e lançaram aqueles corpos de sangue para o interior do ônibus, mais uma vez verificando a ausência de testemunhas, atearam fogo e saíram lentamente para o interior de uma viatura encoberta pelas sombras daquela noite. O motorista livrando-se do mimetismo imposto saiu em silencio e abriu aquela bolsa despercebida e manchada de sangue, apertou as notas que mesmo turvas cheirava a viagem de férias. Aquela que estava sempre nos seus sonhos.

Por Adilson Cardoso

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