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Coluna – Olhos

O olho é um órgão da visão dos animais, através dele detecta-se a luz transformando essa percepção em impulsos elétricos, isto é um conceito técnico, repetidamente devorado para fins de pesquisas e para quem às vezes confunde “olho de porco” com olho de olhar. O olho me incomoda, por mais que eu tente me explicar olhando no espelho sempre tem algumas coisas que olho quando estou olhando no meu olho. É difícil entender, a compreensão exata de um olho é bem maior que uma forma amendoada de esboço em tela de pintura, mais enigmática que o olho da Esfinge e quiça, um pouco além do olho do furacão. O olho de cada um traz consigo imagens que nenhum cabo de USB pode transportar para computador são símbolos codificados sob uma estratégia de pura singularidade do olho. Certa vez ouvi dizer que um sujeito suicidara por causa do olho de uma garota. Duvidei do contante por achar descabida a morte apenas por causa de um olho. Fui embora e por longos dias aquelas palavras mexiam no meu interior como um peristaltismo intermitente, quis saber o nome daquele sujeito que me abordara apenas para desequilibrar meu inconsciente, mas ouvi da minha mãe que quem conta história de suicídio por culpa de olho não existe em pele de gente. Daí então meus olhos se fixaram no espelho e minha cara tomou forma de alguém que não era eu, fechei os olhos e consegui voltar ao normal naquela escuridão de imagens que eu podia manipular, porém quando voltei ao espelho minha face ainda não era eu, também não era a face transformada que vira há pouco. Fechei os olhos novamente e me vi, pensando com um olho que enxerga dentro da mente e revirando arquivos da memória referencial para encontrar a razão que atormentava meu espírito, lembrei-me de uma folha que por acaso guardara como marcador de página de um livro já lido. O homem vendia óculos em certo canto da praça para fugir dos olhos fiscais que lhe cobravam impostos. Seus óculos não tinham garantia e as pessoas sorriam por pagarem preços pequenos, enquanto as ópticas dependuravam cartazes nas portas e demitiam funcionários. Um cego com uma bengala emendada cheirava a sujeira e pedia esmolas com a mão estendida, olhei para um rapaz que o olhava de longe fingindo receber uma ligação no celular, pessoas despercebidas lançavam moedas e passavam distantes com o dedo pinçando o nariz, um olho do céu se fechou para não enxergar aquela caridade. No ponto de ônibus olhos se olhavam, subiam com aqueles que despontavam nas janelas e observavam em perspectiva o inicio da rua. O homem que vendia seus óculos em uma grade móvel tentou fingir que não se lembrava de mim, mas comprei um óculos espelhado de azul e ele contou-me que visitava sempre o cemitério da cidade, adorava velórios que tinham bebidas destiladas e petiscos, em um daqueles que conforme suas lembranças lhe disseram sobre o triste fim do rapaz que se encontrava no caixão. Por um tempo olhei decepcionado para as nuvens e os olhos aguados de uma senhora surgiram no olho interno da minha sensibilidade, era uma vendedora de rosas que se arrastava pelas ruas sujas levando com sofreguidão um grande cesto, vermelhas, brancas, amarelas e uma angustia que não dividia com ninguém, era dia de finados e dos olhos cinza do firmamento surgiam às gotículas que se ampliaram caindo em forma de chuva, quem comprava aquelas flores também chorava olhando com olhos de dor, olhares que não existem mais.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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