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Coluna – A guerra do pequi

De longe, Alípio Capataz avistou um vulto que inexplicavelmente desapareceu na mata, talvez  fosse aparição mandada do reino dos mortos ou bicho homem montando tocaia. Puxou forte as rédeas da égua parda e assuntou, fez o sinal da cruz no peito, ajeitando a cartucheira, certificou-se de que o gatilho estivesse no ponto… Vendo que nenhum movimento anormal deu continuidade, prosseguiu no trote do animal, destampou a binga e acendeu um cigarro de palha imaginando os passos seguintes e foi se aproximando do local. A égua bufava com o cansaço de muitas léguas e os sacos cheios de pequi dependurados, mas não pedia arrego, entendia que o dono precisava seguir sem paradas até o ponto em que a segurança fosse avistada. Eram muitas luas de companheirismo rasgando o sertão com a própria pele entre esponjeiras e carrapichos, urtigas e cansanção. Alípio de vez em quando levantava a cabeça para observar toda a sua volta e recordava as últimas palavras do coronel Januário Simplício, sentindo um arrepio medonho como se algo estivesse prestes a acontecer. De repente, veio um cheiro de sangue lhe invadir as narinas e o coração disparou dando cutucadas no peito, mas não desanimou. Da mesma maneira em que chegavam os presságios ruins, a voz valente de matuto corajoso devolvia:

– Vai, agouro do capeta, volta pro meio do Zinferno!

Mas a jura que o coronel havia feito após constatar que o seu filho Erisvaldo já era defunto não fugia do seu consciente. Ele sabia que, se treitasse, a morte vinha lhe buscar, pois ali era sertão sem alma, lugar onde cada nascer do dia que acordasse com vida era motivo de comemorar. Alípio não se arrependia por ter matado o filho do coronel e os outros pestes da família que se encontravam naquela hora. Foi um pouco mais digno, já que velhos e crianças foram poupados. Se não matasse, com certeza estaria morto. Mas se arrepende ao pensar que o velho ficara vivo. -É velho, mas não presta! – pensava resmungando. – Eu bem sei que cobra machucada vai longe pra picar e o veneno é ainda mais matador! Desde que o pequi entrou em extinção, o preço da fruta do cerrado literalmente vale mais que ouro. Velhos garimpeiros que se entregavam nos fundos de minas e de rios sonhando com a sorte de uma isca de pedra preciosa agora se embrenham nas caatingas altamente vigiadas por jagunços de coronéis, no intuito de achar nem que seja um só para salvar o ganho do sustento. Erisvaldo Simplício era temido e respeitado, sua violência interior não deixava que compaixão fizesse parte do seu credo, facínora mais cruel que qualquer cangaceiro um dia fora. Comandou uma das maiores matanças  contra catadores de pequi que a história pode contar. Famílias inteiras que tinham pequizeiros em suas propriedades foram assassinadas e deixadas para servir aos urubus. Alípio Capataz viu mãe, pai e os irmãos serem trucidados na sua frente pelo desgraçado, ele só conseguiu escapar com vida porque pensaram que o tiro que lhe deram na cabeça havia sido suficiente para matá-lo,mas a sorte permitiu  que fosse apenas de raspão. Depois do episódio, passou longos anos perambulando pelas matas, se escondendo das chuvas embaixo das grutas e fazendo da solidão sua capa de aço que escudou a vingança  até o dia em que o sangue do maldito escorreu sob os seus pés.

Passou do local onde a cisma lhe mostrara o vulto e sorriu aliviado, sabendo que era apenas um catingueiro que cruzou a estrada para beber num fiapo de rio que escorria embaixo de um pé de braúna. Passou as mãos apalpando os pequis e olhou com um longo suspiro a fria linha do horizonte.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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