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Coluna – O culto ao corpo e o Brasil sem educação

O início do culto ao corpo perfeito surgiu na Grécia. A preocupação com a forma física era de extrema importância para o povo grego. A busca por uma capacidade intelectual e física acima dos padrões ocidentais acabaram por difundir o lema tão repetido em tempos atuais: “mens sana in corpore sano”, ou seja, mente saudável em corpo são.

O corpo era bastante discutido na Grécia antiga, apesar de assuntos como a política e a ética serem considerados os mais relevantes pelos pensadores da época. Filósofos como Sócrates (470 a 399 a.C.), Platão (427 a 347) e Aristóteles (384 a 322 a.C.), também discutiram sobre esse assunto. Sócrates nutria uma visão integral de homem, entendendo como importante tanto o corpo quanto a alma para o processo de interação do homem com o mundo. Platão pensava de modo diverso, pois possuía uma visão mais dicotômica, na qual o corpo servia de prisão para a alma. As ideias de Aristóteles aproximavam-se mais das ideias de Sócrates do que das de Platão, pois partia do princípio de que as ações humanas eram executadas em conjunto – corpo e alma -, todas num processo contínuo de realização.

Atualmente, o corpo humano é objeto de estudo de várias áreas da Ciência e da Filosofia, principalmente quando suas dimensões passaram a ter um discurso multidisciplinar. Certamente, as mutações que o mesmo sofreu ao longo da construção da sociedade ocidental são responsáveis por esse interesse em discuti-lo e estudá-lo com maior profundidade e alcance.

No Brasil, lamentavelmente, temos observado, especialmente jovens, que parecem cultuar um corpo saudável. Mas se esquecem plenamente de uma mente sadia. Relegam, por completo, a leitura e os estudos, em busca de um ideal que não ostenta a menor relevância para a construção de uma sociedade calcada em premissas sólidas. Não discutem política, filosofia, sociologia, ética ou mesmo religião. Em redes sociais, assassinam as regras mais basilares da língua portuguesa. Como nutrir esperança em uma nação que parece ser acéfala?

Que fique claro: não estou aqui a defender o descuido com a saúde física. Mas precisamos melhorar, e muito, os cuidados com a nossa saúde mental. Permitir com que o corpo conduza as diretrizes de nossas vidas pode nos levar, tanto na seara privada quanto nos espaços públicos, a perdas ainda maiores e irreparáveis.

Para ilustrar a ideia central deste texto, nada melhor que a “parábola da democracia”, extraída dos contos e observações do Talmude, livro sagrado dos judeus, aqui retratada livremente.

Por muito tempo, a cauda da serpente tinha seguido a cabeça, e tudo estava bem. Um dia começou a estar descontente com este “arranjo da natureza”, e dirigiu-se nestes termos à cabeça: – Há muito tempo que observo com indignação o seu injusto procedimento. Em todas as nossas viagens, é você que toma a dianteira, enquanto eu, como um criado servil, sou obrigado a seguir-te. É sempre a primeira a aparecer em toda a parte e eu, como um miserável escravo, tenho que andar atrás. Isto é justo? Não sou eu um membro do mesmo corpo? Porque não poderei dirigi-lo tão bem como você?

– Rabo imbecil, exclamou a cabeça. Queres dirigir o corpo? Não tem olhos para ver o perigo, nem ouvidos para te avisarem dele, nem cérebro para o evitar. Não compreende que é para sua vantagem que eu dirijo e o guio pelo melhor caminho?

– Para minha vantagem, não é verdade, disse a cauda. Essa é a mesma linguagem de todos os usurpadores. Pretendem reger para o bem dos seus escravos; mas não me submeterei mais tempo a semelhante estado de coisas. Insisto que a partir de agora devo tomar a dianteira.

– Pois bem, replicou a cabeça, já que se diz tão competente, que assim seja; mas depois não diga que não o avisei dos perigos. Portanto, a partir de agora, guia você e veremos.

A cauda regozijou-se e tomou a dianteira. A primeira façanha foi arrastar o corpo para uma fossa de lodo. A situação não era das mais agradáveis. A cauda lutou muito andando sem rumo apalpando os obstáculos que não conseguia ver. Com grande esforço conseguiu sair da lama; mas o corpo estava tão coberto de imundice que nem parecia pertencer à mesma criatura. A façanha seguinte foi enroscar-se sobre cipós e espinhos selvagens. A dor foi intensa; o corpo inteiro ficou ferido gravemente. Aqui teria sido o fim de tudo se a cabeça não tivesse vindo a seu reboque; mostrou-lhe então a melhor maneira de sair daquela situação e assim foram salvos. Mas a cauda não se conformou com seus próprios erros e insistiu em continuar administrando a dianteira. Continuou a marchar; e quis o acaso que entrasse numa fornalha acessa à mais de mil graus. Em questão de segundos começou a sentir os efeitos do calor que ameaçava destruí-la em poucos minutos. O corpo inteiro ficou congestionado; foi uma situação terrível. Mais uma vez a cabeça veio em seu auxilio salvando a todos. Mas já era bastante tarde e a cauda havia sido consumida pelo fogo. Apesar dos esforços da cabeça, o fogo continuava implacável destruindo rapidamente o resto do corpo. Portanto, a cabeça também foi destruída.

A ruina da própria cabeça foi permitir ser guiada pela cauda. Esse será seguramente o destino de nosso pais se a nossa juventude continuar sendo guiada pelo corpo. O Brasil está vivenciando uma situação terrível! A culpa é de um só partido ou temos todos uma parcela de responsabilidade? Os tempos atuais exigem o culto à mente sadia!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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