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Coluna – Recordos de uma foto

Coluna - Recordos de uma foto
Coluna – Recordos de uma foto

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A foto em epígrafe possui grande significado. Traz recordações da década de 60. Montes Claros se revelava pequena para a quantidade de sonhos de muitos nascidos nessa bendita terra. Vivemos nela até os primeiros quatro anos da maioridade, depois de cumprir um ano de “Tiro de Guerra” –  “atirador Sena, número 10, deste TG 87 se apresentando”.

Em Montes Claros havia apenas o esqueleto do prédio onde é hoje o hotel Monterrey, este da fotografia nem tão antiga assim, na confluência das ruas Dom Pedro II e São Francisco, que tanto deu o que falar. E outro na Praça Dr. Carlos.

Quem hoje vê Montes Claros nem imagina ser a mesma cidade retratada na foto. O casarão onde funcionava o mercado, na Praça Dr. Carlos ainda estava em pé. Sumiu da paisagem. Daí também a importância da foto que integra o acervo de dona Maria das Dores Guimarães Gomes enriquecido por Wagner Gomes.

Dele tenho boas recordações. Às vezes, ainda na fase ginasial da vida, íamos ao mercado depois da aula chupar melancia, mexerica. Mercado sempre me atraiu. Desde menino frequento mercado, ganhei gosto. Foi meu pai quem me levou a primeira vez ao mercado. Depois que ele morreu às vezes minha mãe me mandava ao mercado fazer a feira.

Aconteceram algumas vezes de gazetearmos aulas na Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, e, às escondidas, entrávamos no prédio cujo esqueleto ficou ali longo tempo “abandonado”, obras paralisadas. A diversão era ir até o último andar e de lá arremessar aviõezinhos de papel. Embalados pelos ventos, os aviõezinhos alcançavam distâncias enormes para um apetrecho de papel.

Uns voavam até o casarão do mercado. Outros chegavam ao casarão da sede do “O Jornal de Montes Claros”, na Rua Dr. Santos, 103, onde anos depois trepidaria sobre uma máquina de datilografia Remington redigindo as primeiras matérias num incipiente jornalismo. No lugar foi construída uma agência bancária.

As abas de papel funcionavam como asas dos aviõezinhos e nelas iam as nossas rebeldias e a vontade de voar não como Ícaro, mas como o 14 BIS de Alberto Santos Dumont. O espírito James Dean misturado ao dos Beatles impulsionava o ritmo do viver de logo mais.

Era gostoso e de certo modo perigoso apreciar lá de cima os aviõezinhos. Embalados pelo vento a imaginação nos remetia a viagens ao redor do planeta, como visão de um futuro factível. Como é lindo o “Planeta Azul” identificado pela primeira vez por Yuri Gagárin, o russo que orbitou a Terra.

Como via principal da cidade, à época, a Rua Dr. Santos parecia se estreitar cada dia mais. Os anos se foram passando como o trem da estrada de ferro da Central do Brasil nas consecutivas viagens a Belo Horizonte.

Houve noites em Montes Claros que não se via sequer um dos amigos nos locais costumeiros de encontro. Para onde teriam ido?! Foram embora estudar em Belo Horizonte, destino de quase todos eles.

Os montesclarinos eram facilmente identificados nas ruas da capital, ali pelas bandas da Tupis ou na Goiás onde havia a Lanchonete Nacional, o Bar do Chico e a redação do Jornal Estado de Minas. Ou no Lucas, no edifício Arcanjo Maleta, frequentado por intelectuais, escritores, jornalistas que faziam a redação do EM da década de 70/80.

Saí de Montes Claros, mas Montes Claros nunca mais saiu de mim. Filho criado em liberdade em quintais das casas onde a família morou, a infância foi um sonho bom em contato telúrico de primeiro grau, os pés descalços com direito a bicho de pé e ouvidos ligados ao canto dos passarinhos e frutas no pomar, colhidas à mão. Numa das casas onde nós moramos na Rua Marechal Deodoro, só jabuticabeiras havia duas dezenas.

Teve também os bons tempos da Praça de Esportes, na adolescência, com peladas na pista gramada e futebol de salão hoje futsal; pingue-pongue e tantos outros momentos mágicos que nem há recordação de algo entristecedor. Como disse um amigo “não tenho nada a queixar, “s’euqueixo” é de burro”.

Em vida a gente absorve montanha de coisas. Dá pra ficar encabulado como pode amontoar tanta coisa dentro da caixa craniana e ao mesmo tempo senti-la vazia. Oca, como um cano de PVC. A água vinda por meio do cano não é do cano. O cano é mero canal. Daí jorrar caudal de lembranças de uma simples foto antiga.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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