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Coluna de Adilson Cardoso – O Palhaço que era mágico

Eu tinha apenas 07 anos de idade, gostava de desenhar e sonhava com uma casa nas nuvens e uma escada invisível. Tinha enorme prazer em ouvir conversas alheias, principalmente se eram pessoas mais velhas, os vovôs transmitiam-me mais confiança. Certa vez em dia nublado, mas festivo por ser véspera de natal, fui com meu pai ao centro da cidade comprar um sapato, pois ele já havia adiantado desde quando recebera o décimo terceiro salário que em tais datas, estaríamos indo em sua companhia experimentar também as roupas. Éramos três irmãos e duas irmãs, as meninas iam com minha mãe. Naquele dia que estava reservado para mim não economizei o olho em direção a tantas novidades, das lojas coloridas e as pessoas andando desesperadas com sacolas e mais sacolas. Em frente a uma Bomboniere estava um homem vestido de palhaço com um microfone nas mãos, ele se mexia como gato serelepe sobre um novelo de linhas, se rebolava e dava tchau para quem estava do outro lado da rua, improvisava mágicas retirando balas e chicletes dos ouvidos, bocas e olhos dos garotos que passavam próximo. Senti um arrepio medonho, uma sensação estranha que me paralisou, meu pai segurava a minha mão sem paciência por ter que desviar-nos a todo instante da onda de gente que se arrastava pelas calçadas, perguntou-me com a testa franzida e as sobrancelhas suspensas como o vilão de desenho animado não precisou nem abrir a boca para que eu entendesse que qualquer tentativa de lhe contrariar os caminhos pagaria caro. Sabia que quando meu pai decidia corrigir seus métodos eram dolorosos e públicos, dizia que castigo se aplica no lugar em que era cometido o merecimento. Também não aceitava a hipótese de ter um órgão interno do meu corpo transformado em guloseima e ser retirado pelo ouvido ou qualquer outro lugar em plena rua, naquele terrível movimento comandando por um barulho infernal. De repente eis que surge uma colega, não sabia ainda seu nome, mas estudava na minha sala estava com o uniforme provavelmente planejava ir para a escola depois das compras. Estava a poucos metros de mim, dizia coisas intermitentes no ouvido da mãe que a olhava com reprovação, porém seguia com seu jeito pirraça cada vez mais próxima do palhaço que falava os preços das delicias expostas na porta, apontava para cartazes coloridos e desenhados; balas, bombons, pirulitos zorros que tanto adorava e doces de todas as cores. Meu pai olhava no relógio e girava a cabeça como se procurasse a loja em que deveríamos entrar, “já passamos por uma que tinha sapatos” disse eu na tentativa de fazê-lo voltar e não passar pelo palhaço. Mas meu pai novamente espetou-me com seu olhar de sobrancelhas arqueadas feito os vilões dos quadrinhos. Eu tinha que aceitar, tinha que pisar seus passos ligeiros e me ver passar o pior natal da minha vida, pois pensava que um mágico transforma as coisas, mas tem que haver alguma coisa para ser transformada. Minha colega que estava à frente entrou com a mãe em uma lanchonete ao lado da loja do palhaço, ficaram numa mesa quase a porta para verem melhor a cirurgia descabida que o palhaço fazia naquelas criaturas indefesas, muitas pessoas ainda andavam a nossa frente para o desespero do meu pai que não parava de olhar as horas. Vi minha colega sorrindo e apontando um garoto que grudava assustado a saia da mãe sob a bocarra do palhaço lhe mostrando a bala retirada do seu olho. Seria eu a próxima vitima, e meu pequeno coração corria pobre e indefeso feito algemado a mão do meu pai, ele ficava no meu peito sem ter o que fazer. Pensei em fingir um desmaio e cair pelo chão, mas na sala de aula a menina iria contar a história à maneira dela, talvez dissesse que o menino fulano sofrera  um ataque de fome na rua, ou coisas piores. Estava a um passo do palhaço, já tinha cara de choro e saudade de um pedaço do olho, nariz dente, língua ou até peça importante do ouvido que seria transformado em balas ou qualquer daquelas porcarias. Se perdesse parte do ouvido e ficasse sem ouvir direito apanharia muito mais que apanhava, já que meu pai não perdoava o desdém, se chamasse e não fosse atendida a pirata na certa arderia no lombo.  Decretado então o golpe mortal para autoestima daquela criança que sonhava com o natal, o palhaço mudou seu microfone de mão e com a outra se esticou em minha direção, além de muitas coisas pedi a Deus que não me deixasse fazer nada nas calças, Felizmente meu pai não estava para sessões de mágica, tampouco queria ajudar vender produtos daquela loja, puxou-me violentamente pelo braço e desferiu aquele olhar de sobrancelhas arqueadas de vilão de revista em quadrinho sobre o palhaço, que ao contrário de mim continuou sorrindo como se aquela cara de pavor fosse mais uma das piadas que conta.

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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