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Coluna de Adilson Cardoso – A mais bela história já contada

Um homem decidido a findar sua vida iniciou os preparativos nas primeiras horas da manhã, sabia que deixar mulher e filhos era dor extrema, mas a forma medíocre que existia era ainda mais dolorosa, no meio de um capitalismo devorador a disparidade das classes atingia níveis imensuráveis a cada dormir e despertar tinha emprego, mas ganhava pouco, sonhava muito e não realizava nada. Nas férias a viagem que fazia era dentro dos delírios alcoólicos. Pisava apertado no chão, olhava para tudo em volta amaldiçoando os carros em fuga, as pessoas que sorriam e a luz do sol que brilhava fazendo sombras. Dentro de si o breu da desilusão não aceitava o archote que cintilava do superego, não tinha um revolver para atravessar-lhe a cabeça com um estalo, faca era doloroso e lento, já sofria muito para partir com tamanha dor. Observou os prédios e se sentiu voando das ultimas janelas, respirando a brisa feito um pássaro sem asas e se acabando no chão, poderia ser assim, o choque seria cabal, morte instantânea. Involuntariamente fez o sinal da cruz, despediu-se mais uma vez de tudo que lembrava e entrou no prédio, momento em que saia uma ambulância, o porteiro comunicando no celular não percebeu que entrava ali um estranho, um pretenso suicida que cruzava novamente a mão direita sobre o peito no sinal da cruz. Dentro dos seus ouvidos a sirene da ambulância parecia não se incomodar até notar o desespero de uma senhora que gritava pelo nome do marido, outra pessoa um pouco mais idosa tentava acalmá-la, mas devido à falta de forças se resumia a singelos pedidos e orações. O homem ignorou aquilo, passou de cabeça baixa, enquanto o eco da ambulância não conseguia se libertar de dentro do seu interior, junto aos clamores da senhora e seus próprios problemas, suas desordens urdidas há tempos e a decisão letal de interromper o ciclo. O prédio tinha aproximadamente 30 andares, pela escada talvez não tivesse forças para chegar onde queria, no tempo que precisava, outros ruídos vinham, se alojam no inconsciente inflamado, agora com a sirene da ambulância e os gritos da mulher, misturados aos seus fantasmas e a sequiosa vontade do fim. A porta do elevador se abria solitária como se o chamasse para sua ultima viagem, sozinho como viera ao mundo das desilusões subiria para vigésimo nono andar, onde faria sua despedida rumo ao oxigênio que lhe falta naquela asfixia de existir. Antes que a porta se fechasse o homem foi surpreendido pela senhora que chorava e a amiga que tentava consolar, desta vez não dizia às coisas que explicitava no saguão, o silencio era um pouco mais doloroso, os olhos inchados e sofridos colava nas paredes do elevador e atravessava em suspiros de agonia. A outra apertava as mãos e orava baixinho, a porta se abriu novamente e dois homens entraram com ares de preocupação, afagaram a senhora desesperada e conversaram durante alguns minutos coisas que aquele obstinado suicida não escutava a sirene da ambulância os gritos, seus problemas e a cara da morte lhe chamando com a mão esquelética no parapeito do prédio. Até que sutilmente, emoldurado de platonismo e saudades a senhora iniciou uma descrição do marido, que estava na fila de transplantes há exatamente dez anos, lutava tanto pela vida que não dizia nada além da palavra “acreditar” acreditava que tudo poderia acontecer de positivo na vida, quando se realmente queria, e ele queria. Ela trazia nas mãos uma pasta de portfólio com fotos e momentos que ilustravam seus relatos, onde se via alguém cheio de vida nos olhos ictéricos que sorriam sem mentiras, tinha marcas de fistulas ao longo dos braços e pescoço, sinais de constantes sessões de hemodiálises, As pernas eram amputadas, mas ele fazia questão de deixar a vista, era um troféu grandioso, pois vencera uma trombose que poderia tê-lo matado, mas infelizmente tudo se acabou naquela manhã, após a parada cardiorrespiratória, quando o médico da ambulância confirmou o óbito. No sexto andar a senhora desceu amparada pelas pessoas que a cercavam, impedindo que a porta se fechasse o homem ficou estático dentro do elevador, acompanhando a senhora se arrastar com sua imensidade de dores, e aquelas memórias dependuradas na pasta que a mão tremula carregava. Desceu ele então com pernas fortes escada abaixo, na cabeça não trazia mais a sirene da ambulância nem os choros e lamentos, enxergava as fotos que iam e voltava com o sorriso dos olhos sem forças, sobre os braços inchados e deformados da hemodiálise, e os tocos das pernas a vista sem questão de pudores. Mas iniciou também uma partilhava daquele espaço de perturbações com seus sonhos de conhecer outros lugares, andar descalços nas areias da obra nos fundos da casa, beijar a mulher e dizer que amava abraçar os filhos e contar uma história, mas uma história longa, talvez a mais bela de todas as histórias já contadas.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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