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Coluna de Adilson Cardoso – O tempo e Sofia

O diagnóstico estava colado na porta do quarto, escritas a pincel atômico em letras pretas sombreadas por vermelho fogo, o fundo era de um amarelo limão causando impacto visual a primeira vista. Quem possuísse certa dose de curiosidade a cerca do letreiro, ela respondia sem vírgulas que se tratava de doença degenerativa rara, que aos poucos iria tirando-lhe os movimentos do corpo, depois a fala, as funções cerebrais e por fim as batidas aceleradas do seu coração. Aquela verdade doía e assustava, mas alguns cépticos pela frialdade das palavras supunham que o caso era de surto psicótico, ou quem sabe envolvimentos com drogas lhe causaram rompimento da razão. Mas Sofia, somente ela era capaz de entender aquilo que desabrigava de dentro, pois se apegava na verdade e no mundo alternativo que alimentava com os sonhos.  A mãe empunhava a bandeira dos santos, pedindo que os dias se congelassem e toda a vida transitasse apenas naquelas horas, mas a noite chegava e o frio da solidão açoitava o imaginário. Era a hora em que uma tormenta imensurável se apossava do interior daquela casa que gemia o desengano. Enquanto o quarto de Sofia era a paz de uma galáxia distante que se desatava das crueldades existentes. Pela janela entre aberta às vozes do silêncio habitavam em forma de poemas que ela escrevia no ar, se os grilos cantassem ou se cães latissem os seus sonhos seguiam no mesmo compasso. Varias sombras instalavam-se nas paredes, algumas enormes quando as cortinas alçavam empurradas pelos ventos, ou miúdas a se arrastarem pelo chão quando formigas sozinhas recebiam reflexos dos vidros da janela. Até que a manhã nascia, ela abria os olhos e lia letra por letra de tudo aquilo que estava na porta, depois, por longos minutos se deixava ir pelos arbítrios do universo, voava nas nuvens, mergulhava nos rios que via nos livros e balançava na Sequoia gigante que sonhava em conhecer, no mar explorava seus mais profundos segredos como uma inesquecível carona até os corais do Nemo nas costas de um Tubarão branco. Sua mãe que já não sorria sem os olhos molhados, voltava aos santos e mais uma vez desejava que os dias se congelassem. Olhava no relógio e ouvia alucinada, o tic-tac efêmero distanciar um ponteiro do outro, ela vagueava pisando em descompasso observando o sol na altura do céu, temia que estivesse acontecendo uma maratona de percurso longo entre os astros do firmamento e ela perderia o tempo de Sofia. Andava novamente de um lado a outro da casa, abria e fechava portas, Notou que somente um relógio não oferecia a exata noção do tempo, quando uma angustia perversa apoderou-se do âmago que amargava como se houvesse lhe estourado o féu. Colocou-se na imprudência de percorrer as ruas olhando o céu com sofreguidão, mas pedindo ao sol que detetive sua labuta, que descontinuasse sua sina de findar o dia que não teria porquê de tamanha celeridade. Da loja de relógios trouxera todos àqueles que reputavam a melhor razão, em casa espalhou pelas paredes, foram dependurados nos móveis e como um grande adorno ornou a porta da geladeira. E assim passaram os dias perscrutando avidamente aquelas maquinas de “tic-tac” e não fazia outra coisa além de observar o tempo, quem se propunha a visitar Sofia era sumariamente infectado pela paranoia do congelamento do tempo. Naquela demência Sofia era engolida lentamente na solidão do seu quarto. Até que a grande aurora “mãe da nova vida” anunciou certo dia, pintando o céu com cores diferentes de uma bucólica manhã, Sofia estava se ocupando das suas reflexões do universo, talvez a sua viagem preferida nas asas de uma linda nuvem. Respirando feliz por não sentir o incomodo que lhe pesava nos pulmões ao respirar, esticou os braços, deixando os raios do sol aquecer o corpo frágil que não reclamava dor, apanhou um bolo alvo de outra nuvem que passava e lançou nas pequenas criaturas que avistava de cima, percebeu que tinha forças e assoviou aos pássaros inquietos que brincavam alegremente. Um grupo de pessoas aladas passou-lhe acenando, montados sobre a brisa que outro dia rodopiara em sua janela. Dentro da casa, despertadores alertavam com ruídos intensos, se misturando a lagrimas e lamentos.  Enquanto outros relógios se seguiam descabidos em suas rotinas, naquele torturante e depressivo “tic-tac”.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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