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Coluna do Adilson Cardoso – Além das águas

 Ano passado no mês de dezembro das sonhadas férias, planejei o que faria alguns dias antes, para não correr o risco de destinos não quistos. Estava na agenda um cruzeiro pelo litoral brasileiro, festa ao som de Toquinho em Fernando de Noronha, uma viagem para Machu-pichu a cidade sagrada dos Incas, o Vale de Gisé das grandes pirâmides dos reis; Quefren, Quéops e Miquerinos, e como não poderia ficar de fora uma visita ao Museu do Louvre em Paris, quero ver de perto o sorriso de tímido da Monalisa. Por pouco daria para fazer tudo aquilo, senão fosse por um pequeno detalhe, o dinheiro que eu não tinha. Porém ao sentir que os dias fluíam muito rápidos comigo ali feito poste ancorado e desiludido, resolvi cometer um pecado extra na minha condenada devedura eterna. Fui aos meliantes legalizados pelo capitalismo que detém o direito de lhe roubar com uma câmara filmando sua cara de satisfeito, acima um letreiro pedindo para sorrir, lá entrei no Leasing e saquei um salário mínino para pelo menos passar uns dias na roça capinando para ganhar uns trocados e voltar mais escuro tirando onda de praieiro de Salvador. Mochila nas costas pinga na bolsa e farofa na gamela, o ônibus clandestino saiu escuro daquela região de noiado e pinguço na casa abandonada. Meu destino era uma cidadezinha as margens do velho Chico onde se atravessa a Balsa, expectativa até começar aquela sensação pavorosa, muito sacolejo, gente gritando e pedindo socorro. Até que as águas se abriram, quem sabia nadar saiu pelas janelas que se espatifaram no atrito com as ondas formadas pelo movimento, quem não sabia como eu, só acordou um dia depois. Vi-me deitado numa cama de casa arejada com muitas portas e janelões, gente bonita, mulheres e homens de todas as idades rodeavam meu leito, algumas moças sussurrando sonetos que questionei se não estaria no Juízo Final. Sorriram quando abri meus olhos e tive colo para afastar o medo. Ninguém dizia nada só respondiam o que eu perguntava, parecia perfeito, encontrar gente que escuta neste universo egoísta de pessoas preocupadas consigo mesmo, Mas aos poucos foram saindo como se fossem coreografadas, o mesmo passo o mesmo olhar para o lado e a cabeça erguida.  Fiquei sozinho olhando para o teto e beliscando meu braço para sentir que não era sonho, uma mulher de nome Sofia e seu marido Alexander se apresentaram como os donos da casa, contaram que eu estava na Cidade Perdida e que fui o único sobrevivente da tragédia da balsa, desconfiado que pudesse estar morto bati com a cabeça na parede e perdi os sentidos. Ao recobrar a lucidez vi que tudo era da mesma forma que as cidades sobre as águas, decorações das casas, comércios e até as boates de estriptease como informou Alexander, tudo isto com a diferença de não existir policiais, os bancos não tinham guardas nem os banheiros tinham portas. Um restaurante Popular onde as cozinheiras apenas preparavam a comida quem servia a quantidade que desejasse eram os próprios clientes n que se organizam numa fila única e ordeira. Após se alimentarem pagavam ao caixa que ficava do outro lado da rua. Fui ao Banco e notei que uma série de etiquetas identificavam notas de todos os valores assim como moedas e talões de cheques em cofres que não tinham portas, a fila andava normalmente e cada cliente contava o que era seu e deixava o outro organizado para o seguinte, velhos e gestantes tinham prioridade sem precisar de que insensíveis seres ainda não humanos julgassem-lhes a necessidade. Acho que perdi a fala principalmente por não ter ninguém oferecendo empréstimos para socorrer das dividas que eles mesmos obrigavam a contrair, fiquei zonzo e mais uma vez o casal guia amparou-me, estavam achando absurdo eu reagir daquela maneira se é obrigação de todos sermos honestos, vi que era fantástica aquela visão e tive vontade de esquecer onde vivia. Quando achei que tinha chegado ao ápice da versão honesta daquele outro mundo,  surge uma Igreja evangélica orando baixo, sem tentar arrastar ninguém a força para aceitar Jesus, e o mais incrível  não estavam chamando pelo demônio!. Paramos para tomar um caldo de cana e um salgado e o vendedor lavou as mãos, pegou com guardanapo ainda nos informou de onde procedia ao que comiamos. Estava em plena lua de mel com a vida, a Filosofia da verdade se apoderava de mim, confessei tantas coisas para Sofia e Alexander que aqueles quatro olhos de pureza pareciam cozinhar minhas palavras vãs. Estava perfeito até na televisão as noites se proibia o Big Brother, para concluir este meu encanto fui com Sofia e Alexander conhecer uma Igreja Católica com peças originais de Aleijandinho e Mestre Ataíde, com mais de cem anos a coleção completa sem dano algum por mãos de vândalos. Conheci o vigário do lugar que cuidava de tudo como se fosse o próprio refúgio do Criador, me disse que a Igreja dali era a favor do uso da camisinha e radicalmente contra o sexo dentro da instituição, e garantiu que nestes mais de um século nenhum garoto havia sido molestado ali. Fui dormir nas nuvens e jurando jamais voltar ao mundo doente em que vivi até aquele dia. Acordei com fortes batidas no portão, alguém do outro lado pedindo para ler um trecho da Bíblia dizia que era testemunha de Jeová. Estava no sonhando no ônibus coberto de poeira que balançava com o sol ardendo na minha cara, fora apenas um lindo sonho… Mas o testemunha de Jeová infelizmente estava do meu lado pedindo para falar sobre um livro que estava na sua mão.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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