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Coluna do Adilson Cardoso – Vende-se uma casa

A casa era branca, lembro-me com clareza, estilo colonial com janelões na frente, a porta era de um azul desbotado e tinha uma pequena lasca solta do lado direito próximo ao piso. Trazia colado um papel retangular de imagem inelegível, talvez fosse santo ou anuncio de novena, não sei bem ao certo. O jardinzinho modesto tinha dois canteiros com gramíneas e roseiras secas, o proprietário dizia ser de flores vermelhas e amarelas, mas nunca se viu crescer nenhuma entre os galhos retorcidos. Em um dos espaços uma tacanha Romãzeira que também não se desenvolvia além de galhos secos e rebeldes e raras folhas verdes. O interior da casa era amplo, três quartos, duas salas e uma cozinha, nos fundos uma área de telhas sujas e um fogão de lenha atravessado em um dos lados, uma mangueira de quase cinco décadas fechava a descrição do imóvel a quem se interessasse ouvir a proposta de venda. Por uma pequena quantia acrescida ao valor pedido entregaria toda a mobília vinda de gerações, sendo; um banco de madeira ao lado da porta da frente, uma mesa de jacarandá feita por escravos aproximadamente 1887, uma espingarda de dois canos que há muito não descia do prego enferrujado da parede da sala e um quadro com fotos de um casal de gente pálida e sem expressão na outra extremidade da parede. O pote de barro trazido de Grão Mogol por um tio garimpeiro também entraria no negocio, mas antes o interessado deveria ouvir uma história; o tal tio passara grande parte da vida em busca de ouro, mas era alcoólatra e certo dia expulsaram-no do alojamento, sem ter aonde ir foi morar numa gruta distante do antigo local, ali foi escavando com tenacidade até o dia em que achou o que sempre aspirava, grandes diamantes de valores incalculáveis, depositando todos no pote que lhe saciava a sede, e andou por longos dias em busca da velha casa, o sonho da mãe seria realizado. Foram anos distante da família, naquele dia chegou como uma alma em desalento libertada das profundezas do umbral, a noite tinha ventos e trazia raios e trovões, mas ele tinha urgência de viver sua nova sina nas terras fantasiadas pelos desejos impuros, apenas disse à velha que no fundo do pote se escondia parte do tesouro que lhe mudaria os rumos, era seu sonho ali, desaparecendo na mesma fugacidade em que surgira. A mãe cega recebera resmungava e maldizendo, aquela chuva que lhe invadia a casa e o filho excomungado que sumira pela vida inteira e chega com pote de água e pedras lhe causando mais peso na vida desgraçada.  Evacuou aquilo na enxurrada que descia pelo quintal, colocou o pote em baixo da goteira que mirava o centro da sala e foi acender uma vela para Nossa Senhora do Desterro. Na cozinha havia um fogão a lenha com uma chaminé preta, uma prateleira pintada de um azul desbotado, talvez o mesmo usado na porta, pequena mesa e duas cadeiras, um forro de plástico com imagens de frutas. Os quartos tinham camas simples e pequenas cômodas de umburana, o maior deles acondicionava uma bruaca de roupas e objetos antigos da família.  A placa de vende-se estava desalinhada sob o ferro que sustentava a luz que alumiava a rua, um pedaço de arame metalizado e frouxo, “Vende-se esta casa” o leitor deveria girar levemente a cabeça para ler com perfeição o anuncio. O velho estava sempre sentado abaixo dos letreiros, dia e noite, se fazia sol se protegia com chapéu e uma folha grande de bananeira, na chuva usava uma capa preta, sua imagem raquítica e solitária costumava assustar nas horrendas madrugadas quando gatos miavam nos telhados com seus gritos de agouro, algumas pessoas não cruzavam aquela parte após meia-noite. Os vizinhos comentavam aquela obstinada trajetória, espiavam por entre frestas e folhas das arvores, pelas fechaduras das portas e janelas, ele parecia empastado no mesmo lugar. Até que numa sexta-feira a rua estava como sempre deserta e o carteiro era novo ali, escarafunchava um numero com uma carta na mão e sinais peculiares, quando notou um estranho revoar de urubus sobre a casa em frente, o banco onde jazia o velho estava apinhado das negras aves, não eram poucos, outros estavam enfileirados nas telhas. De repente um deles de gesto sinistro arrancara-lhe o olho, outro encontrando sua boca aberta puxou-lhe a língua enegrecida, enquanto seu corpo hirto permanecia preso ao banco, arrancou lhe o chapéu e um caroço purulento rompeu-se do cume da cabeça onde borbulhou um liquido fétido atraindo vorazmente dezenas quase centenas de outros urubus, Trombaram na placa que balançou violentamente, seguidas vezes até que o arame metalizado soltou-se e a chapa de aço arriou-se feito lamina de guilhotina sobre o pescoço descarnado que se partiu feito corpo de boneco montado. Um daqueles pássaros enganchou-se nas garras secas da Romãzeira e não obteve arrimo dos outros que se preocupavam apenas em comer o mais que pudessem. Da cumeeira o gato que miava agouros especulava sem pressa as ações daquele bicho que já havia se movido dentro de todas as possibilidades de fuga, mas percebia as intenções corrosivas com os olhos aterrorizados.

Por Adilson Cardoso

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