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Coluna do Adilson Cardoso – Números da Sorte (parte l)

O negrume da noite ainda estava estacionado no céu, quando o corpo franzino daquele garoto se arrancava da cama e vestia apressado seu macacão de bolsos largos e a blusa da escola por baixo, o sapato desgastado e a meia remendada completavam o conjunto paupérrimo. Mastigava ansioso o pão sem manteiga e engolia o café ralo sob os olhos do cãozinho totó, ainda com a boca cheia saia porta a fora após o beijo com cheiro de tabaco dado pela mãe, figura esquálida de pés compridos e unhas encravadas, que usava sempre uma touca de meia rodada na cabeça completando o figurino tosco. Pelas sombras dos postes e muros que se alongavam pelas ruas o garoto se punha exorbitante galgando as figuras dantescas que se formavam na sua mente juvenil. A mãe de longe se postava na porta clareada pela luz fraca do interior da casa, olhava com a mão no peito o desaparecer daquela pequena criatura que há pouco completara uma década de vida. Quase ninguém sabia o verdadeiro nome dele, já que desde criança no colo um tio o chamara de “Pin”  Sebastião sua graça  herdado da pia de batismo por promessa ao santo guerreiro. Pouco importava, pois só atendia por “Pin”. Todos os dias no mesmo horário fazia o mesmo trajeto, uma hora de cansativa caminhada até chegar à casa amarela descascada de numero 23 na estreita rua de paralelepípedos na parte antiga do centro da cidade, lá era a distribuidora dos jornais que ele vendia para comprar seus sonhos, ainda distantes já que era uma casa grande com muitos quartos, um sozinho para ele com televisão e vídeo game, figuras coladas na parede como as pessoas que passavam nas novelas possuía, para a mãe  compraria  um médico  para deixar em  casa  e sanar   as  dores nas costas quando viesse aquela tosse, um avião para andar em todos os cantos do mundo procurando o pai que não tivera o prazer de conhecê-lo. Mas antes de realizar tais  sonhos  precisaria comprar os materiais escolares e ajudar no sustento da casa já que os outros 05 irmãos eram  menores que ele. Ao receber os Jornais das mãos do senhor Rui saia em disparada junto aos primeiros raios da manhã, oferecendo as noticias quentes,  no posto de gasolina tinha um freguês assíduo era o frentista Neco, às vezes para ajudá-lo comprava mais de um, ele sorria e agradecia sempre como a mãe ensinara “Deus te ajude!”. No edifico das Acácias deixava para passar no final da jornada pois sabia que vender um ali também era garantia, além de um café com leite e pão de queijo oferecido pelo seu Joel do Tijolo, o zelador amigo que todos os dias lhe confidenciava  intrigas dos moradores, “Escuta Pin, o Arnaldo do 202 entrou em discussão com a Natalia do 203 por culpa de uma correspondência que ele desconfia que ela havia pegado  para prejudicá-lo, já que era para comparecer a policia, e o pior é que o marido dela jurou que da próxima vez a coisa vai esquentar!” “Ah, sabe dona Leda do 405? me deu uma jaqueta novinha só porque eu falei que a minha não estava mais tapando o frio, olha Pin se ela me desse bola eu acabava com minha viuvez na hora, eita se Deus desse asa cobra!”. O garoto apenas sorria dos causos do zelador, as vezes quando era perguntado respondia vagamente, mas gostava mesmo era de ouvir. Ao final do papo se despedia com a fome saciada e se perdia no calor do sol entre as buzinas dos carros e a mistura de fala dos transeuntes, acertava os jornais e recebia um até logo do chefe Rui, ia olhando as coisas que  não via com o escuro da turva manhã a água que jorrava na praça era sempre atração, as vezes tinha pássaros outras borboletas, enfim sempre algo novo acontecia lá.  O vendedor de picolé sempre tentava lhe vender um “morango” que sabia ser do seu gosto e que naquela hora estava com a porcentagem das vendas que fizera. Naquele dia o foco de Pin era uma costelinha de porco que a mãe dizia estar sonhando em comer, fritas com batatas sobre o arroz e o  feijão. Dentro do açougue acrescentou mais um objeto nos seus sonhos, compraria um açougue para que a mãe pudesse escolher a carne que lhe viesse ao apetite, também daria um pouco de carne para a avó e para o tio Levi que trabalhava cavando buracos no cemitério (Continua)…

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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