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Coluna do Adilson Cardoso – A única Colher

O cheiro da comida exalava soberbo, o estomago do pai roncava, o filho vinha logo atrás e as duas filhas largavam desesperadas as roupas no tanque e corriam para a cozinha, o cãozinho não queria ser o único a não estar ali, chegava levantando a cabeça, farejando em busca de descobrir qual era a novidade para o almoço. A mãe ralhava e apontava para a panelinha de ferro com a ração ao lado da tigela de água, mas ele fingia não entender e se deitava em baixo do armário com as orelhas atentas, em volta da pequena mesa os três filhos e o pai salivavam a cada ruído dos pratos, até que vinham as panelas e o cheiro extasiante do picado de mandioca com carne de sol, o feijão de caldo com pele de porco o arroz branco com pimenta de cheiro e macarrão passado com salsa e cebolinha, mas se esqueciam mais uma vez de que era apenas uma colher e o pai detinha o privilégio de comer primeiro. No seu prato preparado pela mãe caiam com esmero cada item soprando seu odor aspirado pelos olfatos famélicos. A mãe pegava o pano e desatinava-se a limpar o fogão, assoviava batendo copos sobre a pia enquanto aqueles olhos mastigavam acompanhando fielmente cada movimento da colher que entrava e saia da boca do pai, às vezes se ofereciam para soprar-lhe o de comer, mas o ritual do patriarca não poderia exorbitar de tantos anos na mesma peleja, se tinha frango comia a coxa a moela e o peito, ao dar cabo da carne sugava o tutano dos ossos e passava a língua cuidadosamente nos beiços. Ao aproximarem-se as ultimas colheradas recebia o copo com água quase no orifício de onde saia o talher, mas ele se fazia de bravo e parava o olhar com desaprovação concluindo seu ritual levantava-se arrotando e batendo na barriga. A hierarquia era respeitada, assim a mãe dava seu bote feito serpente na moita e segurava a colher com determinação, colocava a comida numa tigela plástica e ia ver o Sitio do Pica-Pau amarelo, enquanto mastigava lentamente, os filhos e o cão sentavam-se por obrigação ao lado dela para certificar-se de que as cenas da televisão não atrasariam a normalidade da colher do prato até a boca. Todos os dias era a mesma coisa. O pai comprou uma nova bicicleta, a mãe trocou o vestido de flores, mas não compravam outra colher, os filhos invejavam a casa da vizinha que tinham garfos dourados, prateados e até pequenos feitos de plásticos do aniversário que participaram, as colheres eram de todos os tamanhos, até algumas muito coloridas estavam harmoniosamente organizadas ao lado das facas que se cortavam os doces. Uma das filhas escreveu ao Papai Noel; “Querido Papai Noel, por favor, se puder nos presenteie com três colheres, eu, minha irmã e meu irmão estamos cansados de esperar nossos pais terminarem de comer para chegar a nossa vez, obrigado!”. Papai Noel não conseguiu entender no primeiro momento do que se tratava aquele pedido insólito e quebrando o protocolo devolveu a carta fazendo uma pergunta, “Minha filha seja mais clara, colher de quê!?” A garota fartou-se de feliz e imediatamente retornou a carta, “Colheres de comida papai Noel”. Papai Noel então entendeu que se tratava de uma metáfora e aquelas crianças passavam fome, infelizmente como milhares e milhares no mundo, mas faria o possível para sanar aquela doença social. Reuniu muitos quilos de comida, incluindo carnes importadas da lapônia, da Letonia e Lituania, da Tanzânia e até Porco do Mato da Amazônia. Foram também brinquedos, celulares e tablets de ultima geração. A meia noite ela acordou os dois irmãos e o cão e se esconderam ao lado da lareira, olhavam pela abertura a chegada do “Bom velhinho” até que intermináveis pacotes foram sendo despejados, carnes, enlatados, refrigerantes, biscoitos e os eletrônicos, mas infelizmente não vieram as colheres, ficaria novamente expostos “a roleta russa” a cada prato daqueles que a mãe viesse a preparar. Choraram abraçados, pela abertura que brilhava o céu de natal faiscando de estrelas sorridentes se olharam como coreografia e deram as mãos numa audaciosa ideia, vendo que o sono dos pais estava em Alfa, foram até a cozinha e pegaram aquela única colher e amarraram-na em uma tira de fita e as três mãos juntas rodaram, rodaram e rodaram, fizeram com que a velocidade produzisse um zunido que denunciava ser a hora de atirar, soltaram a colher que desapareceu sem se informarem da direção adquirida, “que nunca mais retorne aqui!” disseram convictos de que algo mudaria em suas vidas. Abraçaram-se e foram dormir. A noite se passou com sonhos fartos de guloseimas e brincadeiras no parque, muito cedo se colocaram de pé para receber os abraços natalinos dos pais, abriram os presentes com os sorrisos largos e ouviram palmas insistentes incomodaram na porta. Era a avó que chegava humildemente na melhor das intenções trazendo uma colher que eles conheciam tão bem, esticando a mão enrugada disse a filha; “Achei esta colher ali no chão amarrada numa corda e pensei, já que vocês só tem uma…”

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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