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Coluna do Adilson Cardoso – Zé e Severino

Um Nordestino e um Mineiro conversavam em um banco de praça, desiludidos com suas peles secas e seus incomparáveis linguajares contavam o quanto seus anos se passaram desidratados. O Nordestino se chamava Severino e o Mineiro era Zé.

“Pois é Severino, já perdi as contas de quanta gente boa vi entrar no ônibus de mala e cuia, foi homens, mulheres, meninos e velhos, uma eternidade de cabeças quentes em busca de sobreviver!”.

 “É Zé, bem queria eu ter pena de você e dizer que meu povo é o contrário do seu, queria dizer que sempre tivemos mesa farta e água para tomar ao menos banho todos os dias, mas nossa sina é bem mais cruel que as suas, houvera tempo em que as estradas do Nordeste eram congestionadas de paus-de-arara, para cima e para baixo a currumaça de gente fugindo da seca, São Paulo deveria agradecer a nossa gente por hoje ser da grandeza que é, pois lá em cada edifício que se projeta apontando para o céu tem o dedo de um Nordestino!”.

 “É Severino acho que a seca no Nordeste também é culpa do próprio Nordestino, já ouvi dizer que onde se enterra cabeça de jegue a chuva não cai!” “Como assim Zé? Está querendo insinuar que o animal que sempre ajudou nosso povo, carregou Jesus Cristo na barriga de Maria e foi puxado por São José deve ser devorado por urubus?”.

“Não estou querendo insinuar nada, só sei que em Minas quando a chuva demora cair em um lugar, dizemos que enterraram a cabeça de um Jegue!”

Severino se levanta, ajeita o chapéu de abas largas e aperta a bolsa de couro, cospe no chão e olha afrontando o mineiro.

“Escute aqui seu Zé, é melhor que repense seus conceitos sobre o nosso amado Jumento, ou então nós vamos resolver de uma forma muito mais sangrenta que o combinado!”

O mineiro se levanta, com a mão direita conserta o cinto na calça, desliza o chapéu redondo para um lado da cabeça e olha dentro do olho.

 “Resolveremos agora, da maneira que o senhor achar melhor e não me venha com rampante de cangaceiro que comigo do jeito que vier vai voltar!”.

Enquanto os dois se emparelhavam para disputar a contenda na força, mas uma linda loura, alta e simpática quis saber qual dos dois poderia levá-la até um ponto de taxi, estava com algumas sacolas e até ali não confiou em ninguém que pudesse pedir o favor.

O Nordestino ajeitou a bolsa de couro e apertou o cordão do chapéu largo, mas o mineiro já estava com as duas mãos sobre os embrulhos oferecendo os préstimos.

Os peitos e as nádegas da mulher alimentavam a vontade do Nordestino de não se dar por vencido na peleja, então pedindo licença a moça chamou o adversário em um canto e propôs uma trégua, levariam a moça e no caminho o que desse seria dividido entre os dois.

 Assim foi feito e a loura com seus olhos de anil era sorriso e piscadelas para um e outro, perguntava nomes, profissões e até o tipo de bens que possuíam, numa esquina quando esperava o movimento de carros diminuírem, roçou impiedosamente no Mineiro, que sentiu o coração e as partes intimas dilatarem simultaneamente, na travessia da rua as pessoas se batiam enérgicas, olhos nos sinais e na faixa de pedestres enquanto cinco dedos brancos de unhas vermelhas se abriram e fecharam apalpando o Nordestino que umedeceu com um arrepio eriçando os pelos de Todo o corpo.

 Algo aconteceria ali, até o ponto de taxi tudo poderia mudar, pensava o mineiro. Mas também passava pela cabeça do nordestino que se estivesse sozinho com a moça muitas daquelas inenarráveis fantasias poderiam ser realizadas.

 Os dois se olharam mortalmente, cada um carregava seu numero de sacolas e sua ânsia por se livrar do outro e a mulher gostava daquilo, apertava os peitos enormes que por pouco não saltavam do soutien blusa a fora.

O ponto de taxi estava à vista, era só dobrar outra esquina e se despedir da mulher, mas nenhum dos dois queria aquilo e se olhavam com ira, usavam do folclore para tentar matar o outro com mau-olhado e lançavam pragas de todas as profundezas.  As pessoas passavam se acotovelavam seguindo os ponteiros dos relógios.

“A cidade violenta as pessoas, enfia na boca larga e mastiga, machuca a carne, mas não engole” dizia um poeta de cabelos emaranhados ao lado do ponto de taxi, aonde a mulher agradeceu o favor e entrou na porta de trás do carro branco, seu vestido era vermelho e no meio daquelas pernas grossas usava uma calcinha preta, os dois ficaram sabendo disto por olharem pela janela para um adeus melancólico.

Por Adilson Cardoso

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