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Coluna do Adilson Cardoso – Olhos de Fogo (parte l)

Matar aquele cão imundo não vai devolver a paz que procura, tão pouco restituirá a serenidade nesta família! – Não pai, pode até não trazer minha paz de volta, nem a serenidade na família, mas com certeza aquele desgraçado não fará mal a outras pessoas! – Filho pense bem! O tal do Sargento anda de conversinha com ele, dizem até que viram os dois bebericando juntos! – Ah pai e daí, o revolver tem seis balas, posso muito bem dividir com os dois se for o caso! – Tá louco Anísio! Nem no sonho fale novamente uma coisa dessas, já pensou você preso por assassinato de policia, na cadeia eles não te deixam viver nem um minuto lá dentro. – Estou com a cabeça muito cheia pai, cadê a Milena? – Acho que está na rede com sua mãe! – Sabe quando sai o resultado do exame? – Se não me engano será amanhã! – Ai meu Deus, ajude que dê negativo para acabar logo este pesadelo! Anísio deu as costas para o pai e saiu pisando indeciso, na estante puxou um livro grosso e retirou o marcador de dentro, passou os olhos com pressa e virou-se para o pai que torcia o botão de um velho radio de pilha, a cada tentativa de fazer o aparelho funcionar um ruído de vozes aparecia e desaparecia dando lugar ao chiado. Lá fora a mãe dele se balançava na rede com a neta no colo, contava uma história interpretando a fala dos animais, Milena ria e repetia o grito da Chapeuzinho Vermelho para o Lobo. Ao ver o pai emudeceu e apertou fortemente à avó, Anísio paciente agachou-se com os olhos molhados e abraçou as duas sem dizer nada. Por alguns minutos ficaram ali na mesma posição até que a menina pediu que lhe comprasse um bombom de ameixa e depois um chiclete de morango. A avó apertou-lhe o nariz e mandou que o filho fosse almoçar, acrescentando que fizera o angu com frango que ele gostava.  Anísio respondeu com um sorriso fraco e beijou-a na testa, agradeceu e disse que precisa ir ao banco saudar umas dividas.  Milena estava com os cabelos amarrados em forma de rabo de cavalo, o rosto alvo e angelical mostrava uma marca avermelhada abaixo da orelha e outra mancha roxa no pescoço. Seu corpo franzino era facilmente embalado pela pouca força que a avó empunhava no movimento da rede, os pequenos seios brotavam sutis por debaixo da camiseta amarela e as pernas esticadas mostravam como havia crescido. Anísio tratou de fugir do pensamento que o levava para dois anos atrás quando a Milena ao invés de for deixada em casa como as outras crianças após a aula, fora levada pelo motorista da Van a outro destino. – Mãe fica com minha princesa mais um pouco que eu não me demoro! – Tem certeza que não quer almoçar um pouquinho? O frango vai esfriar. – Eu como na volta! – Papai não se esqueça de trazer meu bombom e meu chiclete! – Tá bom meu amor, papai traz! Não demoro tá? Anísio abriu a porta do carro, mas antes de dar partida mergulhou-se no retrovisor e viu a esposa grávida alisando a barriga nua com Milena escrito em letras brancas, na maternidade se viu segurando no colo aquela criatura em gritos para fazer o teste do pezinho, o furo na orelha para o brinco de ouro, e dos primeiros passos ao encanto pelo Balé. Parecia uma borboletinha cor de rosa se mexendo naquele salão imenso. Dois anos se passaram e a dor latejando como se fosse ontem, o pior era a impunidade.

(Continua) …

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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