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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – O açúcar, o diabetes e a morte de “Tia Maria”

Reza a lenda que o rei Dario (550 a.C. a 486 a.C.), cognominado o Grande, celebrou, na antiga Pérsia, hoje parte do território Iraniano, a descoberta de uma “cana que dá mel sem precisar de abelhas”.

Muito antes, entretanto, a Índia, berço da grande civilização Hindu, e a China, maior país da Ásia Oriental e o mais populoso do mundo, a haviam conhecido. Todavia, os europeus cristãos descobriram o açúcar graças aos árabes, quando os cruzados viram as plantações nas planícies de Trípoli e provaram os saborosos sumos que, dizem, tinham salvado da fome populações sitiadas em pequenos vilarejos do território do Líbano, situado ao leste do mar Mediterrâneo.

“Como o fervor místico não cegava seus olhos bom para os negócios, os cruzados se apoderaram das plantações e das moendas nos territórios que iam conquistando, do reino de Jerusalém até Acre, Tiro, Creta e Chipre, passando por um lugar nas vizinhanças de Jericó, que não por acaso se chamava Al-Sukkar”. A partir de então, o açúcar, pesado em gramas nas farmácias, foi o “ouro branco” comercializado em toda a Europa.

A descoberta do que deveria ser bom, porém, com o passar dos tempos tornou-se demasiadamente ruim. Em 1500 a. C., médicos egípcios relataram casos de pessoas que urinavam muito, emagrecendo, por consequência, até a morte. Conta-se que Areteu, médico que teria vivido na Grécia entre os anos 80 d.C. e 138 d.C., criou o termo “diabetes mellitus” para “fazer referência ao gosto adocicado da urina de seus pacientes”.

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.Entretanto, foi apenas em 1776 que o esculápio de Liverpool, Matthew Dobson, desenvolveu um método para determinar a concentração de glicose na urina, livrando os médicos do terrível dissabor de prová-la. A doença, por outro lado, só foi “reconhecida como entidade clínica em 1812, ano da publicação do primeiro número do The New England Journal of Medicine, a revista médica mais lida pelos médicos de hoje”.

De lá para cá muitas descobertas foram concretizadas pelo homem. Infelizmente, contudo, os avanços conquistados no tratamento da doença não têm refletido, em especial, na saúde pública de nosso país. Vivemos uma epidemia de diabetes que se propaga de forma absolutamente assustadora, seguindo os passos da obesidade, da vida sedentária e estressada dos grandes centros urbanos.

Para se ter uma dimensão do drama, só no Brasil há 12 milhões de pacientes diabéticos. Se esse número é assustador, mais ainda são as previsões: se continuarmos no mesmo ritmo de vida, plageando os norte-americanos, em 2050, cerca de 30% dos adultos sofrerão de diabetes. A proporção chegará a 50% para a população acima dos 65 anos.

O diabetes é uma das principais causas de insuficiência renal, cegueira, amputação de membros, doenças cardiovasculares de um modo geral. “Surge quando o pâncreas deixa de produzir ou reduz a produção de insulina, ou ainda quando a insulina não é capaz de agir de maneira adequada”.

De tão complexa, admite quatro formas distintas de escrita da palavra: o diabete, o diabetes, a diabete e a diabetes. É preciso, assim, ter muito cuidado e atenção. Trago, adiante, como mecanismo de reflexão, caso recente envolvendo pessoa de meu grupo familiar: cuida-se de minha “tia Maria”.

Embora tenha se mantido sempre distante, há alguns episódios relâmpagos que marcaram a minha memória. Era uma pessoa de trato difícil. Em razão de divergências inaceitáveis entre iguais, não conversava com os irmãos. Na velhice, fora colocada em um asilo. Menos de uma semana após, veio a óbito: uma súbita parada cardiorrespiratória tirou a vida da menos nobre das Marias. Em sua cama, naquele amanhecer sombrio do mês de novembro, muitas formigas, atraídas pelo “sangue doce” daquela que não teve nenhum parente próximo a lhe acudir no momento em que mais precisava, a fizeram companhia. O diabetes teria sido o fato clínico gerador daquela perda sentida. Creio que foi o desgosto!

Caro leitor, embora a doença cause um estrago descomunal, refiz essa trajetória histórica da descoberta e dos perigos do açúcar para dizer, paradoxalmente, que temos mesmo é que adoçar nossas vidas: com mais amor, acolhimento, respeito e compaixão. Mario Quintana, poeta e jornalista gaúcho, dizia que “diabético é quem não consegue ser doce”. A diabetes matou Maria, mas a vida a fez sentir um gosto amargo como fel. Faltou a Maria, em sua reta final, a doçura da família, o conforto de um lar, a presença dos irmãos, a tolerância da filha! Que Deus a tenha!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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