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Coluna do Adilson Cardoso – Ruas e Palco

Coluna do Adilson Cardoso – Ruas e Palco

Uma luz se acendeu, o olho que observava não viu que era um palito de fósforo que sustentava a tacanha claridão. Um homem gritou desesperadamente tentando abrir uma janela. Dentro do camarim Ana relia pela ultima vez sua fala na Peça a poucos minutos da estreia, ”ouço os gritos, e eu atônita, fico sem entender…” Na rua deserta um vigia andava despreocupado fumando um cigarro. Entre umas e outras baforadas girava a cabeça observando as residências. De repente algo lhe chamou atenção naquele sobrado antigo, com a pequena lanterna direcionou o foco para o alto de uma janela onde faiscava uma luz tímida escapando por uma fresta na madeira. Não era falsa impressão, tampouco alucinações da cachaça que lhe servia de companheira pelas noites insalubres. Os gritos aumentaram, e bates intermitente começou a surgir com violência, à imensa janela do final do século XVIII trazia marcas inconfundíveis do vandalismo moderno, uma pichação na parte esquerda que se encerrava na parede, eram alguns riscos que talvez o único que saberia decodificá-los fosse o próprio pichador. Mas o guarda não dispunha de tempo para pensar no crime contra o patrimônio histórico, já que os gritos e as batidas na janela se ampliavam intensamente. Trêmulo e prestes a encarar um perigo real, coisa que nos quase dois anos de dia sim, dia não de vigília jamais havia se deparado, enfiou a mão cheirando a cigarro no bolso do casaco e retirou a garrafa de cachaça virando em um gole duplo. Os gritos que até então eram apenas gritos começaram a incluir palavras, entre elas pedidos de clemência e socorro. Por alguns instantes com o fogo do álcool conduzindo as atitudes, forçou o portão, observou possíveis entradas e aliviou-se por não ter que fazê-lo, retirou da bolsa que carregava dependurada um grande celular da marca Motorola, talvez o primeiro dos aparelhos, achara jogado numa destas esquinas e consertara, ou melhor, um amigo receptador lhe fizera gambiarras e colocou funcionando precariamente, naquele instante para o seu desespero estava todo apagado.   O jeito foi apelar para Nossa Senhora de Aparecida lhe mandar que uma viatura da policia passasse por ali, ou que qualquer transeunte que não fosse os fumadores de crack que outro dia lhe tomaram a bicicleta. Mas infelizmente a santa poderia estar numa outra demanda, seu pedido pode ter sido colocado nas prioridades, mas em outro momento. De repente um barulho de tiro ecoou no interior da casa, mais outro e o homem que gritava se calou. O vigia não conseguiu esperar pela boa vontade de Nossa Senhora, foi clamando a todos os Santos que lhe vinham à memória, acendeu um cigarro e tomou outra pinga com o silêncio mordaz lhe consumindo, aquela luz de antes fraca e tímida transformou-se em um grande facho que clareou toda a rua ao brusco abrir da janela, seu olho lacrimoso e inchado que se escondia na sombra de uma amendoeira, viu-se despido e temeroso, “pusilânime olhador de ruas” diria seu chefe, Um velho brasileiro que se aventurou na Guerra da Malvinas ao lado da Inglaterra por pura aversão aos Argentinos, amante do futebol, mas briga no braço com quem ao menos ventilar que Maradona jogou mais bola que Romário, já que repetia sempre que Pelé é incomparável. Diria a frase corriqueira se visse o estado emocional do vigia que se agachou rente ao muro e saiu tropeçando em suas pernas moles desnutridas pelo medo, sentiu falta da bicicleta que os fumadores de crack levaram, mas assim que pagasse algumas contas esta seria prioridade, lembrou-se de Nossa Senhora e voltou a pedir, mas desta vez queria apenas que lhe protegesse e mais nada, se a policia passasse melhor seria, mas… enfim o que a Santa fizesse por ele estaria bem vindo, desde que não fosse para lhe ceifar a vida um dia antes do pagamento. No palco a plateia extasiada com a peça ouvia Ana fechar o Terceiro ato ”ouço os gritos, e eu atônita,fico sem entender…”

Por Adilson  Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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