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Coluna do Adilson Cardoso – Saco Pintado

Coluna do Adilson Cardoso – Saco Pintado

Zé Eduardo tinha o dom, diziam os apoiadores. Lutava nos ringues como os grandes medalhistas que assistia pela televisão, na sala de aula  era a sensação das garotas, conquistava qualquer uma com a truculência dos seus braços fortes e tatuados.  Pamela, Larissa e Brigida eram  as três patricinhas da oitava B, o sonho inalcançável do rapaz, louras lindíssimas com  corpos de pura sensualidade, pernas grossas e tatuadas, chegavam ao colégio em carros importados e fumavam maconha  no intervalo das aulas. Estavam cagando para as advertências da Diretora, o pai de uma era  delegado da Civil, a outra tinha a mãe no Gabinete do Prefeito e a terceira seria herdeira de uma companhia de exportadores de Bailarinas para a Rússia. Zé Eduardo se olhava no espelho e enxergava um astro de Hollywood, apertava seus músculos  e não entendia o porquê de ser rejeitado pelas três. Aprendeu a beber, junto iniciava as primeiras tragadas, ficou  tonto em alguns episódios  e fumou  mais até acostumar-se. Era o tal dentro de si,  não aceitava que mulher nenhuma ignorasse sua presença, tinha apenas vinte  anos, todavia ególatra e possessivo o fazia de  mentalidade caduca. Em um certo final de semana foi convidado para o aniversário da miss simpatia da sala, convites restritos, muito álcool e o cigarro não saia  dos dedos, o movimento intermitente de puxar e soprar a fumaça ocorreu por milhares de vezes em poucas horas de diversão, mas ele não esquecia as Patricinhas que rejeitaram o convite. Mas a aniversariante estava linda e se oferecia a ele  com sorriso. Mas da sua boca nunca dizia palavras bonitas, era  puxar a garota  para um canto qualquer e beijar  na intensidade que desejasse. Passava a mão pelas pernas como se tocasse um tronco de árvore, na genitália penetrava o dedo médio feito ginecologista em final de plantão. No quarto lançou-se  sobre a menina,  pesado feito alpinista tateando as  partes sem leveza alguma, naquele vai e vem deixou-se gozar sem dizer ao menos uma palavra que justificasse o carinho da entrega, aquele jorro morno no interior do ventre não fez com que miss se sentisse realizada, pelo contrário, chorou copiosamente sob o amargo dissabor daquela agressão, comeu uma puta viciada em um lixo qualquer, assim dizia a moça ao seu interior violentado. Mas o pior viria no dia seguinte quando imagens daquele ato repugnante circulava pela sala, o corpo exposto da miss simpatia era compartilhado com febre nas redes sociais. Até que a noticia chegou até ela da pior maneira, o rosto alvo perdeu-se dentro do sangue que lhe subiu de todo o corpo, e, como um objeto que se inflama por combustão inexplicável saiu em disparada com a cara ardente  na extensa linha do corredor não querendo chegar a lugar algum. Zé Eduardo mantinha o sorriso, marca da sua personalidade medíocre, sumo podre que alimentava outros vermes humanos vegetativos a sua volta. Mas as nuvens que circundavam luzidias acima da sua  cabeça começaram a escurecer, como se um eclipse não previsto tirasse o clarão do dia. “Saco Pintado” era uma antiga alcunha e asfixiante alcunha  que o levara a ter  uma infância  torturada, mudança de bairro e amigos, conversas com Psicólogos e por fim a Psiquiatria, medicamentos antidepressivos e soníferos. Mudaram de cidade e de Estado e agora estava curado, e progredia com a alto estima além da camada de ozônio. Mas um gatilho viria a disparar naquele momento de algazarra e explicito vilipendio contra a menina que não se tinha noção onde estaria com  o  surto. Gritaram que o saco de Zé Eduardo era pintado, uma voz fazendo coro no outro canto da sala concordava tentando adivinhar a cor, a garota que mascava chicletes com a boca aberta retirou aquela coisa de um rosa pálido escorrendo babuje e disse que o saco de Zé Eduardo era azul, neste momento os olhos que comiam  a miss em seus pormenores mudaram o foco e passaram a compartilhar a foto editada, um minimalismo ousado, plano detalhe do saco de Zé Eduardo, o galã do saco pintado. As três musas intocáveis da sala ao lado, chegaram aos mesmos passos com suas maquiagens carregadas e as saias curtas expondo tatuagens e sensualidades, em  seus celulares imensos traziam o quadro do saco pintado, agora falaram com ele, aliás, devolveram o escárnio dispensado a miss simpatia. Porém dentro do seu inconsciente as falas vinham de outras épocas, da rua calçada com paralelepípedos, da dor da exposição. Zé só ouvia risos e um sino bater com assombros, uma mão enorme sair do meio das paredes e arrastá-lo pelo saco pintado, ele nu sob os pés de todos os colegas mais aquelas que nunca lhe quisera. Pelado, mas alado  como  pássaro acuado por caçadores  voou  bruscamente para encontrar a paz no infinito da liberdade. O jornal noticiou “Um salto eufórico da janela do quinto andar, o rapaz que era lutador de jiu-jitsu tinha passagens pela policia por 02  tentativas de homicídio contra o próprio pai.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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