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A mulher e a lei – A história de Larissa

A mulher e a lei – A história de Larissa

Hoje conversaremos sobre a realidade de mulheres que sofrem violência doméstica por vários anos.

A mulher e a lei - A história de Larissa
Foto: internet

Há mulheres que, por diversos motivos, não conseguem se libertar dos agressores e passam a vida sendo maltratadas, negando a sua identidade, sua individualidade, numa situação de constrangimento e sofrimento, e, em alguns casos, chegando à morte. Mas há outras que tomam uma decisão e dizem “Basta”, “Cansei”, “Chega!!!”

A história que iremos narrar hoje é justamente a de uma mulher que tomou a decisão de não sofrer mais, “de ser feliz”. A nossa proposta é que as mulheres que sofrem violência doméstica enxerguem que outras pessoas passaram pelos mesmos problemas, mas superaram a dor e venceram. Muitas mulheres irão se identificar com essa história; então saibam que vocês também podem transformar as suas vidas, serem donas do seu destino e serem felizes.

Marquei com Larissa (nome fictício) e fui à residência dela. Lá, conversamos bastante e, por cerca de duas horas, ela me narrou a história de sua vida. Em alguns momentos, ela chorava quando recordava o sofrimento, mas, na maior parte do tempo, ela sorria, brincava. Usaremos os nomes fictícios de Larissa e João. A história real começa assim:

Aos 16 anos de idade, Larissa começou a namorar com João. Com um ano e meio de namoro, ela engravidou, mas não foi morar com ele, continuou residindo com a mãe. Porém, desde o início, a mãe alertou Larissa que João era muito agressivo, ignorante com a mãe e com a avó dele. Mas Larissa acreditava que, com ela, seria diferente, que ele a amava.

Mesmo morando em casas separadas, quando brigavam, ele começava a quebrar as coisas na casa dele, mas ela pensava “Ele só perdeu o controle”. As agressões começaram com empurrões, puxões de cabelos e foram evoluindo para lesões corporais. Na primeira agressão, ela ficou com várias lesões no peito e contou para a mãe. Quando Larissa abriu a camisa e mostrou para a mãe o tórax todo vermelho, a mãe, assustada, pediu que Larissa deixasse João. Mas ela pensava: “Por que minha está tão nervosa? Foi só um empurrão, um tapa”. Depois das agressões, Larissa terminava o relacionamento, mas João sempre pedia perdão, dizendo que iria mudar, e voltavam. Ela continuava residindo com o filho na casa da mãe.

Diante de tanto conflito familiar, certo dia Larissa brigou com a mãe e, mesmo sofrendo agressões, resolveu ir morar com João, se afastando de vez da mãe. João era muito ciumento e Larissa também se afastou dos amigos e familiares. As agressões foram se tornando rotina, mas Larissa sofria calada. A cada dia, ela se isolava mais das pessoas, da família, pois tinha vergonha de falar o que estava ocorrendo. A vizinha de Larissa, uma senhora que sofria violência doméstica durante anos, chamou Larissa e disse: “Minha filha, eu vejo o seu sofrimento. Quando eu olho para você, eu me vejo. Você quer ficar igual a mim? Não faça como eu, deixe esse homem e vá ser feliz”.

Para agravar a situação, João começou a levar amigos para ingerir bebida alcoólica e consumir drogas na casa do casal. Larissa não gostava, se sentia constrangida e tinha medo que alguém notasse. Os amigos de João se embriagavam e ficavam assediando Larissa, que ficava no quarto chorando.

Por muitas vezes, não aguentando mais tanta dor e humilhação, Larissa dava “queixa” na delegacia, mas a mãe de João, que sofria de pressão alta, sempre pedia que ela retirasse a “queixa”. Com pena, Larissa sempre desistia. Ela dizia que, na verdade, ela mesmo queria desistir e se aproveitava dos apelos da mãe dele. O que Larissa queria realmente era que João mudasse, lhe respeitasse, lhe amasse.

Em mais uma briga, João quebrou um prato com comida na cabeça de Larissa, a deixando toda lesionada, e ainda disse “Eu vou matar você”. Larissa correu para o banheiro e se trancou. João começou a bater a porta dizendo que iria matá-la. Desesperada, ela começou a gritar pedindo por socorro. Havia diversos homens nas proximidades da residência ouvindo os apelos de Larissa “e ninguém fez nada”. Uma senhora, que tinha uma barraquinha e que estava lá embaixo ouvindo os gritos, subiu, entrou e pediu que João parasse; ele estava descontrolado. A vizinha telefonou para a mãe de Larissa, que saiu às pressas do trabalho e foi socorrer a filha.

E, mais uma vez, foram à delegacia. Larissa foi encaminhada ao hospital para tratar os ferimentos e fez o exame traumatológico no IML. Ela disse que teve muita vergonha quando chegou à delegacia porque, além das lesões, João tinha pulado em cima dela e o seu braço estava quase quebrado. Hoje ela mostra as cicatrizes dessa agressão por todo o corpo. Nesse dia João não foi encontrado pela polícia: conseguiu fugir.

Depois dessa agressão violenta, Larissa ficou afastada de João, mas a mãe dele, mais uma vez, pediu que retirasse “a queixa”, e ela, com pena, retirou. Mais uma vez ela perdoou João e foi morar com ele novamente. Ela achava que ele iria mudar. E disse: “Se ele me dissesse dez vezes que ira mudar, eu acreditava onze vezes”. Quando ela denunciava e os policiais chegavam, dizia aos policiais que não entrassem em casa, que só queria que eles dessem conselho para João mudar. Larissa não queria que ele fosse preso, só desejava que ele mudasse, que a respeitasse.

Dez longos anos de violência se passaram e Larissa chegou a uma conclusão: “Depois de dez anos, eu tive a certeza de que ele não iria mudar”. Mas ela já estava com dois filhos e não queria voltar para a casa da mãe com os filhos menores e desempregada. Então resolveu que voltaria à casa da mãe estruturada e continuou morando com João, mas voltou a estudar. Começou a trabalhar como consultora de cosméticos, vendendo produtos nas casas das pessoas e, ao mesmo tempo, estudando. Ela concluiu o segundo grau, fez um curso de especialização e começou a trabalhar formalmente.

Apesar de Larissa ter mudado, João não mudou, continuou a agredindo. Depois de dez anos, ela disse: “CHEGA, CANSEI”, telefonou para a mãe e disse: “Mamãe, venha me buscar”. No mesmo dia, voltou para a casa da mãe com os dois filhos e com um emprego. Mesmo separados, João continuou atrás dela, indo ao seu local de trabalho, esperando-a largar. Mas, dessa vez, João não estava mais agressivo, pelo contrário – Larissa disse que ele estava “cheio de amor para dar”. Ele dizia que a amava, que iria se matar, chorava. Porém Larissa disse que aquilo não mais a convencia. Depois de DEZ ANOS de muita dor e sofrimento, ela só tinha uma certeza: “Ele não vai mudar, chega!!”

Hoje Larissa consegue enxergar que ela mesmo não queria deixar João. Ela sempre arrumava desculpas, como: “Ele só perdeu o controle”; “Ele tem ciúmes porque me ama”; “Não posso deixá-lo por causa dos meus filhos”; “Ele vai mudar”. Mas hoje ela diz: “A melhor coisa do mundo é a paz”. Meu filho menor se acordava com as brigas e perguntava: “Mamãe, por que meu pai está dando na senhora?”

Analisando o passado, Larissa atribui a sua coragem e decisão de mudar a três fatores: o apoio incondicional da mãe, pois ela sabia que tinha para onde ir com os filhos; a mudança do ambiente pois, a partir do momento em que ela saiu de casa, foi para outro ambiente, não tinha tantas lembranças dele; e a vizinha que sofria agressões durante anos. Quando ela olhava para a vizinha, ela tinha a certeza de que não queria repetir aquela história de tristeza e dor.

A história de Larissa teve um final feliz, ela está bem, equilibrada, segura, confiante e ciente de que é a protagonista de sua vida. No caso de Larissa, ela teve o apoio de amigos e familiares, que são muito importantes nesse momento de dor. Mas sabemos que não são todas as mulheres que têm o apoio da família. Por isso, existe a Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que oferece toda a estrutura para ajudar a mulher a se afastar do agressor. Hoje Larissa entende que nunca deveria ter retirado a “queixa” e não deveria ter perdoado tantas vezes.

Então, você, mulher, que está sofrendo qualquer tipo de violência doméstica, não fique calada, não sofra sozinha, procure ajuda de familiares, amigos, vizinhos. Busque a Rede de Enfrentamento, que lhe dará todo o apoio de que você precisa para superar a dor, o sofrimento. Assim como Larissa, você pode transformar a sua vida. Mude, deixe de SOBREVIVER e passe a VIVER.

“VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA.”

Telefone:

Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal – 180
Polícia –  190 (se a violência estiver ocorrendo)

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