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Coluna do Adilson Cardoso – Impressões do Além

Coluna do Adilson Cardoso – Impressões  do Além

A porta rangia com os ventos e uma voz de gato se espalhava com terror. Do baixo muro de um caiado antigo via-se aquele quintal imundo, plásticos e papéis distribuídos em desarmonia. A porta se abria mais uma vez como dentes que rangem de dor, na memória a velha com sua voz amargurada gritava por todos os Santos e pedia que a morte lhe antecipasse a chegada, vociferava seus horrores e esbravejava com a neta, a pequena criança com seus oito anos e alguns meses carrega o enorme fardo de dar ouvidos a queixa da avó. A televisão era diuturnamente ligada, o vizinho mais próximo participava de ouvido dos seus programas populares e da sua intensa peleja de dores. Seu humor variava de ruim até o extremo, odiando todo mundo e remoendo coisas do passado, como se todos a sua volta fossem culpados por seu destino. A neta e sua amiguinha Emilly conversavam as escondidas quando a velha descansava do sofrimento com algumas cápsulas de sonífero, a vida era chata e a menina desejava muito ser como a amiga, ter uma mãe que lhe ofertasse  afeto e irmãos que não a ameaçasse como uma dupla que ela amargamente tinha no convívio de casa. Certa noite as janelas da vizinhança se abriram para ver a velha senhora dizer suas ultimas palavras naquele portão estreito, era colocada aos gritos pelo filho e os indesejáveis netos e a indiferença da filha. Algo doía além das descompensações da Diabetes, algo profundamente dela que seus olhos abundantes de lágrimas deixavam transparecer. Mais uma vez ela repetia que a morte devia antecipar suas ações e deixar viver alguém que merecesse, ela não merecia pagar por todos os pecados do mundo, tampouco ser cobaia daquelas dores intermináveis. Pessoas na esquina falavam baixo espreitando aquele vulto atirado no banco de trás do carro pequeno e sair com pressa desaparecendo na virada da rua. A velha ouviu antes do seu ultimo suspiro conversas hipócritas de quem não lhe tinha amor e palavras duras de verdades da medicina, pessoas no quarto olhavam-na com semblantes dolorosos e pareciam se despedir, enquanto ela sentia o frio do medo e um pouco de arrependimento por chamar pela morte, agora que parecia próximo daquilo que pedia se desculpava com Deus e desejava mais uma chance, queria comer um biscoito recheado de chocolate e uma coca-cola gelada, abraçar os netos e ver a novela das tardes como fazia, mas o sono da partida lhe pesava as pálpebras e a voz da eternidade chamou-a em particular, neste momento suas pernas fracas se fortaleceram e sua pele flácida retomou a força dos anos que nem se lembrava mais, a mãe que há muito falecera esperava por ela na porta a beira de um jardim com flores brancas e sua coca-cola gelada, seu biscoito recheado e um abraço apertado. Ao longe daquele lindo lugar ouviam choros familiares, mas ela não conseguia identificar de quem, os choros se ampliavam e algo estranhamente lhe puxava com uma mão invisível para aquele rumo. Mas outras pessoas que há muito não se via tinha seus cantos que abafavam os longínquos prantos, até que  nada mais se ouvia além do soprar da brisa odorante no lindo jardim.  A casa vazia estava sempre escura, e dentro dela as dores aprisionadas da velha que teimava em não sair dali, aqueles gatos que miavam medonhos pelos imensos breus da noite estavam mortos, mas sem encontrar a paz que desejavam a própria velha com sua boca de dor, condenara aqueles animais a morar com os espíritos dos infernos e pagar com suas dores eternas enquanto seu espírito não vingar de todos aqueles que não lhe amputaram as dores intrínsecas que padecia. Aquele muro de caiado antigo, em certas noites se abre para escorrer um sangue pisado cheirando a podre, A porta deve ranger eternamente até os espíritos dos gatos amaldiçoados se livrem do inferno.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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