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Coluna do Adilson Cardoso – Ponto de Vista

Coluna do Adilson Cardoso – Ponto de Vista

Do outro lado da esquina estava o cãozinho negro com manchas brancas na testa, de cabeça baixa fuçava alguma coisa dentro de um saco de lixo. A poucos metros uma senhora gorda de estatura baixa aguardava o ônibus com seus óculos escuros que ampliavam as formas arredondadas do seu rosto. Alheia ao que se passava em volta não percebeu quando um pequeno garoto de aproximadamente sete anos de idade, surgiu retirando o cãozinho de cima do lixo. Outra mulher gorda encostou-se ao lado daquela e disse alguma coisa, ela respondeu apontando para o lado direito de onde estavam, parecia algo envolvente, já que naquele momento os dois rostos gordos direcionavam para lá. Enquanto debatiam sobre os acontecimentos do lado direito um carro vermelho com um homem careca no volante e uma mocinha chupando picolé no banco do passageiro parou e buzinou levemente. Pareciam se conhecer, poucos minutos depois as duas gordas entraram pela porta de trás. A placa do carro era de uma cidade de São Paulo. Ficaram os restos de lixo onde o cãozinho brincava, uma folha de alface tinha um verde conservado como se tivesse refrigerado junto aquela mistura de orgânicos, plásticos e papéis. Um cão cor de terra de pelos arrepiados surgiu para continuar a fuça do lixo como fazia o cãozinho negro, mais ágil e famélico enfiava sua cara grande com vigor e logo foi agraciado com um osso da coxa de um frango, mastigou vigorosamente com a pata esquerda sobre o saco. Porém sua paz seria abalada antes que concluísse as ultimas mastigações, outro cão desta vez um pouco maior com rabo grosso e orelhas pontudas parou a sua frente, talvez estudando seu tipo físico para uma possível investida, mas aquele que estava com a pata sobre o saco de lixo não estaria disposto a se entregar facilmente. A primeira etapa da batalha foram em rosnados, bocas abertas com dentes afiados e sujos de farpas de osso, o maior das orelhas pontudas precipitou alguns centímetros deixando os pelos do outro, ainda mais arrepiados, os rosnados se tornaram mais intensos e os dentes de ambos pareciam maiores, cresceram alimentados pelo ódio, na pura intenção de ganharem a batalha pelo espaço. Mas antes de se pegarem com era o propósito o ônibus parou no ponto onde desceu um senhor de estatura média chapéu de palha de abas largas, calça por dentro da camisa xadrezada e um radio de pilha ao ouvido, ao ver aquela figura um dos cães abanou o rabo e não quis saber da briga, sorte para o que ficou, pois desfrutaria do seu lixo sem ter que disputar na dentada, era aquele dos pelos arrepiados que já detinha a posse provisória. Voltou então a enfiar o focinho e garimpar o lanche, mas antes olhou cuidadosamente em volta para certificar-se que estava seguro. O garoto que há pouco retirava o cãozinho negro dali, passou veloz pedalando uma bicicleta azul, estava com um boné e um tênis, mas não usava camisa, logo atrás passou outro também de bicicleta e bem mais atrás veio uma garota magricela de cabelos amarrados em rabo de cavalo, corria e gritava pelo nome de Renan, cada pedalada dizia que contaria tudo a mãe. O cão de pelos arrepiados não se sentia seguro para continuar a refeição, tanto barulho lhe desconcentrava e também corria o risco de atrair o inimigo que acompanhou o homem de chapéu de palha. Com sensatez abocanhou o saco de lixo e saiu andando a procura de local seguro, aquela folha verde de alface ia despencando e balançando com o tropel.  Após a saída do cão por cinco longos minutos nada mais aconteceu por ali. A enfermeira com todo cuidado puxou lentamente a cadeira de rodas, o paciente sem condições de falar olhou para o lado direito onde uma moto buzinava em frente uma casa, franziu o semblante e pediu que fosse levado. Depois daquele banho de sol, era o banho de chuveiro.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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