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Coluna do Adilson Cardoso – Detalhe de uma caneta no bolso

Coluna do Adilson Cardoso – Detalhe de uma caneta no bolso

O sino tocou como sempre, ordinariamente de trinta em trinta minutos repicava chamando fieis para alguma atividade na Igreja. Naquele momento um homem portando uma bolsa esverdeada nas costas entrou sem lembrar-se de fazer o sinal da cruz, algumas pessoas estavam assentadas nos primeiros bancos e não se deram trabalho de olhar quem chegava, mas o Padre mesmo de cabeça baixa olhando para o livro dos cânticos observou atentamente o forasteiro. Além da bolsa que carregava mantinha uma vasilha de plástico nas mãos, daquela distancia parecia um amarelo alaranjado. O homem tinha nome e o padre sabia o que ele significava inclusive o volume que aparentemente carregava na mochila também parecia ser do seu conhecimento. Como a Igreja é a casa de Deus e de todos que desejarem frequentá-la eis que adentra cambaleante uma senhora magricela arrastando um cachorro também desnutrido, pela força que fazia para conduzí-lo estava claro que ali era um dos lugares que ele não queria estar, nesta imposição orquestrada pela mulher o cachorrinho resistia com pinotes e latidos choramingados, mas claramente sem forças naqueles músculos acanhados o desfecho só poderia ser um só, o cachorrinho venceu a batalha, soltou-se com destreza e mirou o alvo de onde vieram, passou porta a fora numa velocidade que chegaria fácil aos 60 km/h, a mulher balbuciou algumas coisas sem muita empolgação e ficou parada no meio do corredor, direcionava os olhos para a porta, outras vezes fitava o padre com semblante violento de quem está pronto para agressão. O homem da bolsa esverdeada sinalizava para a porta onde saiu o animal, até que se virou totalmente para o corredor ficando de perfil na visão do padre. Mais trinta minutos se passaram e um novo sino repicou, a mulher fez o sinal da cruz olhando para o teto da Igreja e não saiu da frente para passagem de novos fiéis que chegavam após alguns minutos de espera com educação uma velha de chale preto na cabeça e óculos de grau nos olhos empurrou-a levemente sendo seguida pelos outros que vinham atrás. O padre observava os movimentos do homem através de uma câmera instalada em algum ponto próximo e via as imagens em um monitor que trazia sobre o livro, sentiu que era hora de fugir dali quando as mãos do homem deslizaram sutilmente para dentro da mochila e retiraram uma pistola colocando dentro da vasilha de plástico que estava cheia de notas de dólares, numa aproximação da câmera o padre pode notar que havia reais e uma caneta. Esta que foi retirada e dependurada em um bolso do lado esquerdo da camisa, não havia duvidas. Era a mesma caneta, um símbolo ainda não entendido pelos peritos da Policia Cientifica, mas a marca do assassino, ou dos assassinos daquele bando era inconfundível. As mãos do padre se tornaram tensas e gélidas tentando deslizar o dedo por cima do monitor, queria ainda mais aproximação, qualquer que fosse sua tentativa de sair dali deveria ser de acordo com os sinais do homem que achando que não despertaria suspeitas, conferiu o carregamento da arma de cabeça baixa. Puxou alguns fios que se ligavam dentro da bolsa e olhou novamente para a porta.  Tempo possível para que o padre se agachasse e saísse rastejando até um carpete quadriculado com imagens de Jesus, onde teria uma passagem secreta. Ou talvez tenha sido secreta em outra ocasião, pois naquele instante um garotinho de 06 anos que estava junto aos pais levantou-se para acompanhar aquela aventura lúdica, que o padre ao tentar puxar a tampa do esconderijo ouviu a voz da criança pedindo para entrar, o homem que acabava de conferir a arma aguardou por alguns minutos o seu aparecimento, mas naquele instante corria ofegante pelo túnel que daria em uma casa de apoio do outro lado da rua. O homem então se levantou, arma engatilhada em punho pisou forte e saiu correndo feito o cachorrinho da mulher cambaleante que se encontrava na porta chamando pelo seu nome. O homem subiu numa moto que aguardava pouco a frente e não se virou para olhar a grande nuvem de fumaça que subiu após a terrível explosão vinda de dentro da igreja.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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