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Coluna do Alberto Sena – Vamos pescar no Rio Verde Grande

Coluna do Alberto Sena – Vamos pescar no Rio Verde Grande

Tinha de dormir cedo para acordar no dia seguinte cedinho porque íamos pescar no Rio Verde Grande, a poucos quilômetros do centro de Montes Claros. Se não me engano, o nome dele era Dezinho, melhor, o apelido. O nome dele mesmo nunca soube. E não será agora que me vou recordar se acaso tivesse ouvido falar na época, pois se muito o menino devia ter uns cinco anos de idade.

Dezinho era namorado de Rosa. Rosa era amiga de Ladinha, Geralda Batista chamada, minha irmã da primeira leva de três, nesta ordem: Terezinha, epíteto Tê, a primeira; Elza e Ladinha. As três estão hoje com mais de 80 anos. Mas naquela época, Ladinha ainda era uma moça vistosa, amiga inseparável de Rosa. O menino não passava de “uma companhia”, senão “uma vela”, pra ninguém dizer que estavam sozinhas com Dezinho.

Ele era “chofer de praça”, possuía um automóvel tipo sedã preta bem lustrada. O ponto de “carro de praça” era ali na Praça Doutor Carlos, debaixo duma latada de, se não me engano, bougainville. Há duas espécies, uma que se alastra como chuchu em cerca e outra que vira árvore. O bougainville da Praça Doutor Carlos alastrava sobre armação de madeira elevada por pilastras. A praça era linda, naquela época. E nossa. Hoje em dia tenho dúvidas de quem a praça é.

Naquela época, depois de sair de Montes Claros pelo Alto São João, além da linha férrea próxima ao Parque de Exposições João Alencar Athayde, nada mais havia a não ser o aeroporto com uma pista pequena donde dava pra descer avião teco-teco. Recordo-me até de um camarada aviador namorado de uma moça perto de casa. Toda vez que ele ia a Montes Claros ficava fazendo gracinhas pra namorada, mergulhando de avião próximo ao teto da casa dela. O menino via a hora de o avião cair.

A estrada até o Rio Verde Grande tinha cascalho e poeira. Era gostoso ver a paisagem passar – e passava rápido. Ficava em dúvida às vezes, se era a paisagem passando ou éramos nós dentro do carro chique de Dezinho. O rio era de fato grande. E caudaloso, pelo menos aos olhos do menino, que desde então apreciava o canto dos passarinhos e o prazer da contemplação.

No rio já estavam outras pessoas, amigos e amigas de Dezinho, de Rosa e de Ladinha. Os homens saíam armados de vara de pescar. Demoravam um tampão pescando e voltavam com dourados dos grandes, traíras e surubins. Era um rio piscoso.

Eu disse “era” porque hoje em dia o Verde Grande já não faz jus ao nome. Deixou de ser verde pra assumir outra cor; grande não é mais, e muito menos piscoso. Depois de outras idas e vindas ao rio, o menino virou adulto e nunca mais retornou lá a não ser em 1988, quando repórter de jornal, em Belo Horizonte soube que o rio “cortou poço” pela primeira vez devido à ganância de um empresário.

Ele fizera três projetos agrícolas – dois de agricultura (algodão e feijão) e um de pecuária de corte. E tomando como exemplo o que vira na Califórnia, instalou 11 pivôs centrais de 500m de raio em seus projetos todos às margens do rio. Resultado, quando ele ligava os pivôs chupavam toda a água. Abaixo dele ninguém mais recebia uma gota.

Nessa viagem a Jaíba, o fotógrafo Eugênio Pacceli foi comigo. Fizemos reportagens denunciando o ato megalomaníaco do empresário. A manchete dada pelo então editor, Mauro Werkema, foi: “Roubo do Rio Verde Grande Revolta a Jaíba” (Reportagem premiada pela Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas). O empresário ficou pê da vida porque passou a ser chamado de “ladrão de rio”.

No dia seguinte à publicação da reportagem, o rio voltou a correr normalmente e com o passar do tempo, o empresário percebeu a burrada feita, pois o Verde Grande não tinha vazão para alimentar 11 pivôs como ele vira na Califórnia onde os rios são alimentados pelo derretimento de geleiras. No final das contas, ele quebrou. E ajudou a quebrar a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) que financiou os três projetos.

A essa altura da vida, ficaram nítidas na memória as imagens de Dezinho e dos amigos dele com dourados e surubins, em pescaria exitosa, e o rio seco devido à ganância de um empresário igual a muitos responsáveis diretos hoje pelo estrago ambiental prestes a comprometer a vida aqui e no planeta.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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