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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – A escravidão em tempos atuais

 

A História nos conta que na partilha da África, o rei Leopoldo (1835–1909), da Bélgica, transformou o Congo em sua propriedade privada, submetendo os habitantes a uma exploração desumana, perpetrando um genocídio que causou a morte de cinco milhões de congoleses.

Coluna do Dr. Marcelo Freitas

Fuzilando elefantes, o monarca transformou a colônia na mais pródiga fonte de marfim. Açoitando negros infelizes, extraiu látex abundante e barato para a borracha dos pneus dos carros que começavam a rodar pelas estradas de todo o mundo. Ele jamais foi ao Congo. Tudo por causa dos mosquitos da época. Creio que jamais viria ao Brasil, mormente em tempos de dengue, chicungunha e zika vírus. Transmitidas, três em um, pelo mesmo inseto.

Em sua obra Coração das Trevas, Joseph Conrad, narra a história do capitão Léon Rom, oficial de elite das tropas coloniais, que obrigava os nativos a ficar de quatro, a fim de receber suas ordens. Na entrada de sua casa, “entre as flores do jardim”, havia vinte estacas. Cada uma ostentava, como decoração, a cabeça de um “negro rebelde”, chamado por Léon de “animais estúpidos”. O preço a pagar é muito alto!

Realidade semelhante foi suportada pelos silvícolas: à guisa de consideração, no século XVIII, na colônia de Massachusetts, pagava-se o valor de cem libras esterlinas por cada couro cabeludo arrancado de índio. Quando os EUA alcançaram sua independência, materializada em 04 de julho de 1776, os couros cabeludos – scalps – eram cotados em dólares. Em tempos de economias fragilizadas, como a nossa, imaginem o valor, em real, que seria pago por tamanha aberração da humanidade. Dizem que na Patagônia Argentina os poucos índios, antes de serem expulsos de suas terras, cantavam ao ir embora: “Terra minha: não te afastes de mim, por mais longe que eu me afaste de ti”. Outra dívida enorme! Aqui, entretanto, aprofundarei um pouco mais na submissão do negro ao ímpeto dos poderosos.

Obviamente, a história do Brasil não passou alheia ao problema: a escravidão representa uma profunda ferida em nossa caminhada. Não foi senão por essa razão que Darcy Ribeiro chegou a afirmar: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso…”.

Caro leitor, africanos escravizados e seus descendentes foram a principal mão-de-obra da Colônia e do Império. Mas apesar de ter sido abolido no século 19, o trabalho escravo ainda é uma realidade, configurado de um jeito muito mais velado em novos modelos de exploração atuais.

Vale registrar que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera como escravidão todo regime de trabalho degradante que prive o trabalhador de sua liberdade. Calcula-se que 21 milhões de pessoas sejam escravizadas atualmente no mundo, realidade que tem sido maximizada a cada dia, particularmente com a imigração em massa, provocada pelas guerras civis e conflitos étnicos ou religiosos de todas as ordens. É preciso atenção no olhar!

Hoje, nos grandes centros urbanos de nossa nação, observamos uma massa enorme de ádvenas, oriundos em boa parte da África e países que enfrentam guerras civis, que estão sendo submetidos a formas gritantes de privação, configurando legítimas hipóteses de trabalho escravo. Nas praias, nas esquinas, nos sinais, vendem de tudo que provém da máfia chinesa. São senegaleses, nigerianos, congoleses, quenianos. Em regra, obedecendo cegamente às ordens emanadas dos modernos senhores feudais, camuflados, em “peles de cordeiros”, na confortável condição de “empresários” do “crime socialmente tolerável”: o comércio de produtos contrabandeados ou contrafeitos. Isso sem falar nos homens que são submetidos, à força, ao trabalho na pecuária, nas lavouras, na mineração e na produção de carvão vegetal. Mulheres e crianças são maioria nos prostíbulos destes ares. A imensa maioria dos escravos modernos, assim, ainda são negros! O odioso espetáculo ainda subsiste!

Vê-se, deste modo que, abolida em 1888, a escravidão ainda sobrevive em novas formas de exploração no Brasil. Salta aos olhos! É preciso corrigir rumos! Não vale ficar rico ás custas da desgraça e sofrimento alheios. Retribua, a cada um, o que for devido pelo direito. Como ensina-nos Jean-Jacques Rousseau, “se há escravos por natureza, é porque os há contra a natureza; a força formou os primeiros, e a covardia os perpetuou”. Chega de covardia! É tempo de liberdade! É tempo de igualdade!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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