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Coluna do Adilson Cardoso – A Caixa de Sapatos

 

Isso aconteceu comigo numa época de auto afirmação, bem cedo da vida Se não engano aos sete anos de idade.  O pivô de tudo Foi uma caixa de sapatos que encontrei pelo caminho quando vinha da escola, nela tinha uma fotografia de um cavalo marrom lindo, corria tão livre que parecia voar. Não sei o que estava escrito, pois ainda não era alfabetizado. Guardei a caixa sob a cama, mas achava que era vazia e sem vida. Olhava a figura do cavalo e sentia que faltava algo para ocupar aquele espaço, então coloquei meu sapato de ir à missa, mas todos os dias o tirava com a sensação de que não era ele que deveria estar dentro da caixa. Até que certo dia, vindo da feira com minha mãe achei uma pequena reprodução do quadro de São Jorge enfiando a lança na boca do dragão, peguei com sorriso grande nos olhos e dei uma minuciosa apalpada sobre a arte, vistoriei a parte dos fundos e notei que estava em perfeita ordem, um Eucatex bem cuidado e madeiras pregadas com esmero. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi correr para a caixa e colocar o quadro lá dentro. Mas enquanto tirava a roupa que era de ocasiões especiais, senti um bate forte na consciência, algo pedia liberdade para São Jorge, aquela batalha subjetiva de devotos do santo não poderia ser ocultada daquela maneira. Ainda tinha o dragão com suas asas de ir aos infinitos, não poderia ser aprisionado daquele jeito, o cavalo que corria tanto feito o outro da fotografia, enfim, precisavam todos de espaço. Sai correndo com a camisa aberta a ponto de sair do corpo de meias e cueca, mergulhei naquele antro insalubre e arrastei a caixa, peguei o quadro e olhei varias vezes paras as figuras, realmente era muito movimento para a clausura daquela caixa. Deixei o quadro de propósito sobre a mesa, pois sabia que minha mãe acharia um lugar na parede, era um dos poucos santos que não tinha garantido seu espaço naquele mar de santidades. No outro dia depois da aula por ser na semana das crianças, ganhei um copo com meu nome gravado, era um copo verde e tinha a turma da Monica colado em volta. Tomei água e merendei com satisfação pelo presente. Antes de voltarmos para casa à diretora nos informou que o marido dela um homem de cara fechado e sobrancelhas grossas era candidato a vereador, nos deu vários santinhos para entregar aos pais, junto um recado opressor em um bilhete escrito a mão; “Favor votar no candidato da escola para que seu filho continue estudando aqui no próximo ano!” Minha tia que era entendida das coisas, leu e conversou em particular com a minha mãe, mas a mim nada disseram. Imediatamente fui para baixo da cama e puxei a caixa, joguei o copo lá dentro e fui tomar água, enquanto segurava o copo junto à boca, veio à lembrança de como havia sido tomar água no meu copo verde com a turma da Monica dançando em volta, minha mão apertada na asa aprazível, e o melhor de tudo era sentir que havia sido presente pelo dia das crianças que se aproximava. Cuspi então aquela água e coloquei o copo sobre a pia, retirei a caixa, arranquei com avidez aquele presente tão verde e decorado matando minha sede logo a seguir. Estava saciado, perdido no tempo sem preocupações olhei cada personagem da turma criada por Mauricio de Souza e de repente a caixa voltou a fazer parte do meu preocupado imaginário.  Aquele Cavalo marrom do lado de fora talvez fosse um aviso, uma caixa como aquela não poderia ser simplesmente um objeto que outrora guardou algo que se coloca na proteção dos pés, a caixa seria um portal para outra dimensão, com total influência sobre o meu psíquico e talvez planejasse dominar-me até o momento em que seus controladores aparecessem e concretizasse a minha abdução. Peguei imediatamente aquela caixa e joguei no quintal do vizinho, lá se encontrava meu desafeto que sempre ganhava minhas bolinhas de gude, quando tentava argumentar ainda apanhava e precisava correr. Esperei que alguns dias depois as criaturas do espaço viessem e o levassem para sempre como se ouve falar nos filmes. Infelizmente o que se viu depois de alguns dias foram rodas de borracha na caixa cheia de bolinhas e ele puxando para brincar junto a outros desafetos que ganhavam minhas figurinhas no bafo.

Por Adilson Cardoso

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