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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – Em busca das tradições perdidas

 

Euclides da Cunha dizia que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral”. Foi em Os Sertões que realmente me senti tal qual um “Hércules-Quasímodo”, expressão eternizada na obra daquele carioca que, em 21 de setembro de 1903, se imortalizou ao assumir a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras.

Se vivo estivesse, talvez Euclides não teria a mesma visão de nossos sertanejos, especialmente aqueles arraigados em nossos sertões das gerais, beneficiários de algum programa eleitoreiro em tempos modernos. Adiante, como diria Descartes, aduzirei as razões pelas quais me persuado de haver chegado a um certo e evidente conhecimento da verdade, a fim de ver se, pelas mesmas razões, poderei eu também convencer outros.

Desde criança mantenho o hábito de, nesta época do ano, caçar o pequi que em abundância é ofertado pela mãe-natureza. A região em que nasci tem centenas de pequizeiros que forram o chão com estas enormes frutas do cerrado. É tanto pequi que você acaba escolhendo os maiores, imaginando o almoço delicioso que está por vir… Nem sei se os brasileiros de outras regiões deste imenso país gostam da fruta. Eu simplesmente adoro!

Após a “caçada” ao fruto que só é bom quando cai do pé, congelo em pequenas porções, de modo a poder consumi-lo durante o ano inteiro. É justamente naquele período em que a fruta não é produzida que sinto mais saudades. Aí, sim, fica bem mais gostoso um prato quentinho, cheio de pequi!

Para quem ainda não conhece, o pequi é uma fruta típica do cerrado, sendo que muitos Estados brasileiros tentam assumir a sua “paternidade”. Tem o de Goiás (grande, mas amarelo clarinho e com pouca “carne”), o de Mato Grosso (enorme, mas meio insípido), e o nosso (amarelo ouro, carnudo). Já experimentei todos e digo francamente: não existe, no mundo, pequi mais saboroso que o nosso!

Considerada uma das “carnes” mais apetitosas do norte de Minas, ao lado da carne de sol, o centro da cidade de Montes Claros/MG exala o seu cheiro com os vendedores ambulantes que barganham valores variados, de acordo com o tamanho do fruto.

No final de semana que passou fui, uma vez mais, catar pequi. Confesso que voltei com um discurso triste, regado à luz de velas, já que a energia havia ido embora, e algumas doses de um bom whisky escocês. Caro leitor, o pequi está se perdendo debaixo dos pequizeiros. Ninguém mais se ocupa em buscá-lo. Muitos, inclusive moradores da zona rural, preferem pagar por uma dúzia de pequis, a muitas vezes caminharem algumas léguas a fim de buscarem no mato. E não é só com o pequi não! É com a manga, o coquinho azedo, a pitomba, a acerola… Tudo se perdendo no pé!

Os meninos de hoje não sabem o que é sair na chuva, com uma faca e uma sacola nas mãos, catar o pequi, descascá-lo, passar embaixo de um pé de pitomba e sair chupando-a enquanto chega a um pé de coquinho azedo para, depois, voltar feliz para casa, fitando aquele amarelo do pequi que está dentro da sacola, acreditando ser, ao menos por um instante, ouro de verdade.

Com essa breve peroração, escrita de maneira singela, faço aqui indagações: por que as pessoas estão perdendo a capacidade de ir atrás daquilo que realmente desejam? “Por quem os sinos dobram”? Todo mundo só quer receber o produto pronto. Acabado. Não se batalha mais por nada. É a geração google. Em um só clique ao alcance das mãos! Quanta futilidade!

Hoje temos o pequi em postas, em pedaços, sem caroço, tudo perfeitamente embalado, registrado, com conservante e caro. E enquanto isso o pequi se perde debaixo do pé, sem nenhum sertanejo a ir buscá-lo. Tudo está se transformando em pó, literalmente! Basta ver o exemplo do leite que deixou de ser saudável quando tirado quentinho das tetas das vacas e colocado em copos, cheios de espuma. Quem não passou por isso… Prefiro nem comentar!

Para aqueles que, tendo a oportunidade, ainda não a aproveitaram, não é demais concluir com as palavras do mesmo poeta romancista usado no início desta loa às tradições perdidas: “Passam-se um, dois, seis meses venturosos, derivados da exuberância da terra, até que surdamente, imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das árvores decíduas.” Vivam o hoje! O amanhã pode não vir!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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