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Coluna do Adilson Cardoso – A Cancela da Curva do Bodoque

Pêdo Capoeira acordou como sempre fazia aos sábados. No primeiro cantar do galo estava aceso com um gole de café na mão. Lucia Tiririca, que também madrugava neste dia, misturou a carne frita e o torresmo na farofa amarela de feijão sem se esquecer da pimenta malagueta. Passou as recomendações de compras ao marido e disse um Deus acompanhe quase sem abrir os lábios. O cavalo Aranzé conhecedor do trajeto ordinário, mastigava o capim da beira da cerca enquanto esperava o arreio. Pêdo feito pirilampo apressado no escuro, veio  com um cigarro de palha na boca, verificou com destreza os apertos de cada tira e fez o sinal da cruz, alisou a crina bem aparada e puxou a rédea. Muitas léguas separavam os dois do destino, Pangaré estava depois de muitas subidas e descidas, depois de muita beleza contemplada pelos olhos que só aquela natureza sertaneja podia proporcionar.  Era o lugar onde se concentrava o comércio de toda   aquela  cercania, de matas fechadas do outro lado da estrada, onde as almas moram na cultura de cada causo e onças pintadas perseguem bezerros que se ausentam da mãe. Ali, Iambus, Codornas, Juritis e Pombas-verdadeiras são caçadas com estilingues e presas em arapucas para servir de mistura no almoço dos peões. Também se caçam veados com espingardas de chumbo e tatus com jequis e cães caçadores. Mas, a natureza é farta de vida. A caça é sustentável. É o recanto que Oxossi vigia, que Iara canta no açude e deixa Zeca de Cleusa no cio da paixão pela lua. Onde o caboclo d’Água observa a pesca no ribeirão e diz “chega” quando o anzol já pegou bastante. A poeira vai subindo no trote sem pressa do Aranzé. O cheiro de felicidade causa a sinestesia que envolve o olho de Pêdo sobre a serra da Mãe-Preta, que vai criando sobre a cacunda um clarão que surge com a imponência da manhã. Um coelho marrom ameaça atravessar o caminho, mas desiste pelo tropel do cavalo e volta com cisma ao mesmo lugar. Da algibeira, o viajante tira um naco de fumo e começa a picar sem preocupação. Já com a palha cortada, o animal ciente da atividade do dono diminui o ritmo dos passos e observa uma garça plainar a poucos metros com suas imensas asas brancas, parecia estar mostrando um espetáculo coreografado, com a ajuda do vento, que retorce a poeira e constrói um funil rodopiando rumo ao céu. Aquele pássaro pairado sem cerimônia desapareceu de repente quando o círculo se desfez, mas a estrada seguiu sua sina sinuosa, seus altos e baixos, sem perder o ritmo. À medida que as horas se adiantavam, outros cavaleiros iam surgindo das veias que rasgam as matas, com bons dias cordiais e, às vezes, pequenas paradas para um dedo de prosa. Carros-de-boi surgindo no invisível, com suas orquestras instrumentais trazidas pelo eco, e a fome chega quando o sol acusa dez horas. Neste momento, o cavalo sabe que é descanso e a sombra de um juá acolhe homem e bicho sem distinção. Pêdo Capoeira se senta em um velho tronco e abre a lata de farofa deixando ao lado uma cabaça d´gua, o cheiro da comida invade o olfato que faz as vísceras se contorcerem involuntariamente. Mas antes um gole de um litro de aguardente que traz no bornal vem para desobstruir o pigarro da goela causado pela poeira, em respeito joga um pouco para o santo antes da primeira bocada.  A chegada ao comércio de Pangaré é sempre a mesma festa, no mercado tem sanfona com pandeiro e violão, tem zabumba de couro de bode e um triângulo tocado por um baixinho de chapéu de palha que atende por Compadre, dizem alguns que ele da um boi para não entrar numa briga, mas quando esta nela da uma boiada para não sair, o triangulo está tocando e a peixeira balançando. Depois de ensacar na bruaca os pedidos de Lucia, Pêdo Vai minuciosamente comprar com todo gosto os perfumes e os cortes de panos para enfeitar Maria Santinha que na volta sempre lhe espera na velha cancela da curva do bodoque, ali uma cama de capim está adornada com muitas flores e fogo que arde só de pensar.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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