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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – O professor de ontem e o aluno de hoje

 

Acabo de ler a notícia de que um juiz, na longínqua cidade de Rio Branco, no Estado Acre, negou pedido de danos morais a um aluno em ação promovida contra a Faculdade em que estuda. O motivo da contenda estaria adstrito ao fato do professor ter atribuído nota zero ao discente em determinada prova. Interpelado pelo aluno, o professor “o mandou estudar”. Simples assim!

Para o magistrado, restou comprovado que a prova do aluno foi corrigida de forma correta: “Restou plenamente demonstrado que o autor não possui o domínio da matéria e, desta forma, de fato, não poderia ser aprovado ou sequer obter a nota que ‘almeja’”.

Fiquei pensando em tempos remotos, em que estudar representava uma verdadeira odisseia. Eram léguas de distância para chegar à escola, montado a cavalo por vezes, passando em rios com o corpo amarrado em cordas, quando cheio. Caminhar com o único sapato apertado, sem merenda, sem cadernos caros, aqueles dos personagens de televisão. Não era fácil! Mas nessa vida de contradições tudo era, de fato, muito gostoso! Foram dificuldades que nos fortaleceram!

E por falar em cadernos, quem estudou na zona rural sabe do que vou falar: na imensa maioria das vezes, eram aqueles fornecidos pelos políticos da época. Capa brochurão, que nunca aguentava até o meio do ano, com o hino nacional na contracapa. Pode parecer contraditório, mas agradeço muito a Elizeu Resende, Hélio Garcia, entre tantos outros. Sem aqueles cadernos, creio que seria pior. No fundo no fundo, ajudaram a moldar a minha consciência política, a minha personalidade crítica.

O professor era a figura mais importante. Obviamente, depois do pai e da mãe. E ai daquele que ousasse responder de maneira impetuosa. O respeito e o temor eram evidentes e generalizados. E o medo da palmatória? Digam o que quiser, mas a ação da temida palmatória endireitou menino demais! Bem sei que em tempos modernos, o professor seria linchado em praça pública. Sem direito até mesmo a explicar o porquê do seu uso.

Recordo-me que a nossa rotina escolar era mais ou menos assim: oração, hasteamento da bandeira nacional, hino entoado e sala de aula, com moral e cívica e OSPB. A disciplina era rigorosa. Sem olvidar do esforço hercúleo de chegar à escola limpo, penteado e com a tarefa feita, não obstante os piolhos que sempre atormentavam os meninos da época. Obviamente, comigo não foi diferente. A cabeça era grande e os cabelos eram lisos. Hoje, entretanto, a cabeça continua grande. Os cabelos… Cada vez mais raros! O tempo passou!

Caro leitor, a moda agora é colocar o fone do celular no ouvido e fazer o favor ao professor de ficar quieto em sala de aula. Acabou o respeito! A decência! A essência da verdadeira educação tem se esvaido com a tal modernidade. Estamos realmente evoluindo?

Professor agora não pode nem mais mandar o aluno estudar. Não pode reprovar, nem mesmo ser austero. Para onde vamos com tudo isso? Confesso que, por vezes, chego a desanimar. “Minha sensação hoje é a de que a tecnologia da modernidade nos trouxe uns óculos monocromáticos e só enxergamos o que está na superfície, o que vem fácil. Sinto-me às vezes no meio de uma legião formada pela alegria instantânea e felicidade fútil. Não se pode perder nada”. E sem nada a perder não se aprende a ganhar!

Como diria Darcy Ribeiro, “ultimamente a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrina. A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações”.

De fato, precisamos viver mais, amar mais, sem perder de vista o que nos trouxe até aqui. Para seguir adiante, é preciso compreender o passado. Como diria Carlos Drummond de Andrade “a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”. A educação é a essência para uma sociedade saudável! Flexível demais acaba por não conseguir erguer-se e ficar de pé!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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