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Coluna do Adilson Cardoso – Cachorros e as Ruas

“Pichar é minha  arte, não tenho medo de Tenente é só pintar por cima que eu picho novamente”. A frase estava na parede amarelada em frente à casa de numero 53. O portão marrom retocado há poucos dias trazia  marcas submersas de outra pichação, abria-se duas vezes durante o dia e um carro azul com carroceria coberta por uma lona entrava e saia praticamente nos mesmos horários, parecia sincronizado; pela manhã as 07h25min retornando à tarde às 14h40min. O carro ancorava esticado no meio da rua, uma moça descia com um tênis branco e uma meia também branca, porém trazia duas listras vermelhas e uma verde no alto da panturrilha, usava um short de cotton preto e uma camiseta colorida feito abadá de carnaval, tinha  peitos  pequenos e bicudos. Seus cabelos eram louros, quando o vento soprava forte se via   fios negros   na parte inferior, seus olhos  ninguém podia ver devido aos óculos sempre escuros que usava.  O motorista não saia do carro, era um velho de cabelos  ralos penteados para trás que eram sempre acomodados com a mão direita que mostrava certa deficiência entre o dedo indicador e o polegar. Homem sisudo, olhando com cara de inimigo para o quer que enxergue fora do veículo, outro dia cuspira em um cachorro que cheirava o pneu dianteiro que parecia ter passado sobre um monte de estrume. Quando a moça demorava abrir o portão era possível notar a atitude mal humorada dele  com palavras ofensivas e gestos codificados.  Entrava com pressa e o portão se fechava na mesma velocidade. Dizem que os cachorros se parecem com seus donos, já conseguiram provar isto, em personalidades e até aparências físicas adquiridos com o convivio. Saiu na imprensa que em uma cidade do Norte do Brasil certa senhora depois de viuvar-se  ganhou  uma cadelinha para companhia, foram vários momentos de união e partilha, até não suportar mais a ausência do marido e se matar com um nó de corda dependurada no Jatobá. Com pena parentes  adotaram a cachorrinha, o bairro era distante, mas ela sempre voltava,  se deitava no portão e choramingava guarida. Até que um neto da morta resolveu passar uns dias na casa e abrigar a saudosa amiguinha, quando abriu o portão ela foi direto em baixo do pé de Jatobá onde a dona  se matara, e, por mais de vinte minutos cavou freneticamente sem descanso, até que um aparelho celular foi descoberto e o rapaz ajudou a retirar, após carregá-lo puderam ouvir uma terrível mensagem provavelmente gravada pouco tempo antes do suicídio, uma voz masculina se passando pelo marido morto chamando-a esposa para morrer, dizia  ser àquela hora   que ele estaria a sua espera em um jardim com as flores que ela mais amava. Dias depois a família foi chamada na delegacia para depoimentos, após todas as acareações o filho mais novo dos mortos foi  preso em Arraial D’ajuda –BA, acusado de ser o autor da voz que levara a mãe a morte. Depois da solução do caso a cachorrinha foi encontrada morta sobre o tumulo da dona.  Ruas também são parecidas com os donos, nesta rua  por exemplo, os moradores não simpatizam com o velho Tenente que pensa estar ainda no batalhão de policia, exige que o chamem de senhor e que batam continência quando ele toca o hino nacional de altos decibéis. Parte dela é parecida com ele, deserta e sem vida, a outra parte é uma rua qualquer com bisbilhoteiros cuidando da vida dos outros.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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