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Coluna do Adilson Cardoso – Camila, Camille e Poe

Pediu que ela selecionasse os materiais, levasse em maleta separada os pinceis trazidos de São Paulo, lembranças da ultima Bienal. O domingo amanheceu nublado, no local planejado havia um caminho de pedras descendo até o riacho, o galho seco com aparentando  esqueléticas avançava sobre a erva daninha, talvez Dali pintasse mais uma obra sob aquela vista. Pássaros tacanhos se atreviam a pios isolados sob  arvores de verde oliva. Camila olhou o relógio mais uma vez e sentiu um aperto frio, um pressagio de um erro que poderia ter sido evitado, ventilava invisível  palavras que não gostaria de ouvir. Mas abriu a pasta de referências que viera no banco de trás do carro, retirou um livro marrom e leu a capa em voz alta; “ Michelangelo Caravaggio” Folheou sem maiores intenções as páginas com cheiro de novas, mas não se atreveu a leitura. Viu que o céu escurecia, nuvens cinzentas caminhavam com pressa fechando o horizonte, um vento gelado não se sabe de onde vinha gritando nos seus ouvidos, seus cabelos negros desentenderam-se  com a fita florida que os seguravam e cobriram seus olhos verdes, ajudados pelas mãos conseguiram se libertar diante de um torvelinho que tragava as folhas secas e as cuspia no meio da água turva que não esboçava luta. No bolso esquerdo da saia longa de cordões trançados tinha  um cigarro de maconha. Mesmo com dificuldades pela insistência do vento conseguiu acender e fumar em longas prensadas e sentir a paz conhecida daquela fumaça, atirou uma pedra de granizo sem direção,  antes de outras dezenas cairem com a tempestade. “Para ser feliz até certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto”. Edgar Allan Poe. Sibilava na sua mente, enquanto a chuva desnudava os troncos mastigando galhos. O coração sacudia de pavor, ao mesmo tempo a ação da Cannabis desligava a mente daquele instante, Camila sentia-se Camille, Camille Claudel, desprezada por Rodin, esquecida o resto da vida numa casa de loucos. Dela extraiu-se o amor juvenil e a sede de criar sem fim, a inspiração inacabável que se alimentava das migalhas do mestre. Como a chuva torrencial que despejava desmedida, dos olhos dela jorravam lágrimas, jorrava sobre a transparência do linho que lhe cobria os seios, pequenos e claros, marcados por uma excitação covarde, uma promessa que não se cumpria. Uma barganha, agora entendida. Os traços figurativos do painel “A reclusão” ainda estavam esboçados na memória, assim como o Palácio das Artes em Belo Horizonte com suas luzes e  glamour se eternizaria com as palavras de agradecimento aos patrocinadores que ele recitava com hipocrisia. “O estudo sobre Perspectivas” que também rendera ao agora famoso pintor entrevista de horário nobre em Programa Global, com elogios em grandes jornais do país, estava com os passos iniciais, todo o projeto engavetado no seu quarto Atelier. “Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho”. Enquanto Poe voltava nas convulsões inexplicáveis, Camila tentava fugir daquela camisa força que se transformara o carro, um calor que não se media um pavor indescritível, gritos de dentro de si. A foto dele no outdoor, letras fazendo ondas e chamando para a abertura da exposição, patrocinadores de nomes estrangeiros e comentários de Marchands de todas as partes. Em um corte cinematográfico Camila se vê abraçada pelos pais e outras pessoas de rostos desfigurados, está linda de vestido branco como as pupilas de Renoir, nas mãos finas e pequenas de apenas onze anos de idade, está uma folha creme de papel Canson e o rosto da avó querida, pintado com esmero á giz pastel. Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria Tudo o que amei, amei sozinho. Edgar Allan Poe

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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