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TV – Fagundes ganha tintas de oligarquia e enxerga Brasil atual em ‘Velho Chico’

Na terceira fase da novela, o ator substitui Rodrigo Santoro no papel de Afrânio.

A virada de Santoro para Fagundes representa um hiato de 28 anos no enredo
A virada de Santoro para Fagundes representa um hiato de 28 anos no enredo

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Dentro de uma semana, Rodrigo Santoro vai entrar no corpo de Antonio Fagundes. Ou melhor, o coronel Afrânio, que hoje vive em Santoro, passará a habitar a pele do outro em Velho Chico.

É novela, vá lá. Mas, revendo aquele libertário personagem que conhecemos no primeiro capítulo, imerso na revolução cultural de uma Tropicália que fazia Salvador ferver, e que foi se transformando na mais fiel tradução do coronel, capaz de mandar matar e calar quem o confronta, a mudança física parece coisa pouca. “Eu digo para o Rodrigo: ‘olha o que a vida fez com você’, que triste”, brinca Fagundes, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em uma respeitável sala de leituras de texto nos Estúdios Globo, no Rio.

Fagundes relutou em contar como seria seu visual em cena – “Tenho certeza de que o público vai se surpreender”, disse. A imagem do Afrânio de Fagundes só chegou à redação do Estado na noite de sexta-feira, por e-mail, quando enfim tivemos o aval do diretor Luiz Fernando Carvalho para mostrar o novo Saruê. O ator assume o personagem já com alguma carga de maldade nas costas. Durante a festa de lançamento da novela, há menos de um mês, Fagundes – que de Benedito Ruy Barbosa já fez Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra, Mad Maria (minissérie) e Meu Pedacinho de Chão – disse que as histórias do autor não têm vilões. Afinal, os malvados das sagas do dramaturgo costumam ter seus pecados arrefecidos ao longo da trama. Pergunto se ele ainda pensa assim, depois de ver do que Afrânio é capaz. Ele arrisca que, talvez, no fim da novela, sua previsão se confirme. “Acho que novela do Benedito, como devia ser na vida, não tem vilões. Ela tem humanidades, pessoas que fraquejam em alguns momentos, erram, mas também que, apesar dos seus erros, são capazes de se rever.”

Ou não. Em menos de um segundo, Fagundes refaz seu raciocínio: “Se bem que acho que a realidade está desfazendo isso tudo que estou dizendo. Nós estamos vendo agora, na realidade, vilões, canalhas inteiros, pessoas que não têm a menor possibilidade de se redimir. Você vê um Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por exemplo, é um personagem fabuloso, mas ele contradiz isso. Não tem humanidade. A realidade realmente nos destrói um pouquinho quando a gente quer enriquecer os personagens. Se a gente pegasse esse enredo que estamos vivendo, ontem mesmo eu falava isso ao Daniel Filho, diriam: ‘Desculpe, está muito mal feito. Esse personagem aqui não existe, está muito maniqueísta'”.

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No caso de Afrânio, apesar da esperança em encontrar uma figura mais humana no fim da novela, a virada de Santoro para Fagundes representa um hiato de 28 anos no enredo e ele chega a esse novo tempo mais malvado que nunca. O texto de Edmara Barbosa e Bruno Luperi, filha e neto do autor da história, respectivamente, ganha tinhas políticas bem mais fortes. Afrânio se torna uma aberração do símbolo do coronelismo, com ações nada camaradas. “Ele constrói uma estrada, é muito aplaudido na inauguração, é fantástico o que ele fez naquela caatinga. Agora, a estrada só vai até o entreposto dele”, conta o ator, que vê semelhanças profundas entre a trajetória do personagem e os rumos do País.

“A novela fala desse Brasil que a gente está vivendo. A gente percebeu um movimento político a caminho de uma coisa boa e, de repente, descobriu que não, que não estava caminhando, tinha uma coisa corroendo por trás. Esse Afrânio, esse personagem que o Benedito criou, é o retrato do que a gente está vendo aí. É um cara que tem informação, é advogado, lidava com a lei, e é tirado daquele possível ambiente dele, civilizado – não é à toa que começa na Tropicália, um momento moderno, revolucionário, de virada para a modernidade do Brasil – e o jogam no meio da caatinga, de um sistema montado há séculos, que ou ele morre ou ele preserva aquele sistema.”

Durante nossa conversa, Fagundes, que chegou a militar pelo PT há mais de duas décadas, não menciona siglas partidárias – a não ser o PMDB de Cunha, citado nominalmente. Desde que percebeu que não teria na TV, depois de ajudar a eleger alguém, os mesmos segundos que tinha durante a campanha, para discordar de alguma ação do político, nunca mais emprestou a voz para publicidade eleitoral.

Política, sim, ele tem feito como uma espécie de líder artístico dentro da Globo, título que dispensa. Há mais de dois anos, em comum acordo com colegas que buscavam melhorias nas relações com a emissora, passou a emprestar sua casa para reuniões em que o elenco discute de tudo um pouco – dos cachês para participação em programas da casa a prazos de entrega de capítulos para gravar. Houve um tempo em que os atores recebiam os roteiros e capítulos a poucas horas de gravar, o que comprometia a qualidade artística. “É o Mova, Movimento dos Artistas, mas, na verdade, a gente fala mesmo é sobre a profissão, inclusive teatro, cinema, comercial. Isso implica uma participação da Globo também, que acompanha esse movimento. Quando a gente faz uma colocação que a empresa acha injusta, ela reage, e como a gente não tem nenhuma postura de confronto, nossa ideia é de somatória do resultado artístico, e a coisa acaba funcionando.”

ACM e TRUMP

Diretor com peso autoral como nenhum outro tem na teledramaturgia, Luiz Fernando Carvalho contou que a segunda fase da novela “traz crítica social e um certo humor”.

Ao falar do velho novo Afrânio, explica que ele se aproximará ainda mais da caricatura do coronel, o que implica “certo mau gosto”. “Ele se tornou uma figura muito mais excêntrica, montada como todo e qualquer político populista”, remetendo não só ao clássico Antônio Carlos Magalhães – que não pintava o cabelo, diga-se -, mas também a Donald Trump, com quem ficou mais parecido.

Aos saudosos daquele estudante recém-formado que abria a novela, Luiz assegura que o “Saruê (coronel agora estabelecido como tal) não matou o menino Afrânio; ele calou aquela figura, vestiu a roupa de coronel. Da mesma forma como ele se encantava pelo dionisíaco da Tropicália, ele se encantou também pelo ‘dionisíaco’ do poder, porque o poder tem um delírio, essa sedução, esse lisérgico. Ele se encantou por isso e vestiu a carapaça, mas é uma carapaça. Embaixo, tá o cara que um dia pode voltar.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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