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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – O alto preço da dignidade

O conturbado cenário nacional nos remete a uma análise aprofundada do conceito de dignidade e o seu verdadeiro sentido em tempos de declínio moral. O filósofo alemão Immanuel Kant dizia que a dignidade é o valor de que se reveste tudo aquilo que não tem preço, ou seja, que não é passível de ser substituído por um outro equivalente. É, assim, uma qualidade inerente aos seres humanos, enquanto entes morais e éticos.

Com o passar dos tempos e diante da facilidade advinda da tecnologia, passamos a minimizar o sentido de certos adjetivos que deveriam nortear as nossas condutas e percepções diárias. Creio que de maneira defensiva, a fim de justificar ou suavizar os efeitos da (ir)responsabilidade atrelada a nossos atos. É mais fácil, assim, acreditar que de nossas condutas não advirão conseqüências. Se vierem, serão abrandadas pelo esquecimento. “O povo tem memória curta”.

A velha máxima de que “os fins justificam os meios” impera em nossa combalida sociedade como nunca. Buscamos justificar os atos impensados, as maldades tramadas e as omissões covardes, como se delas não adviessem terríveis consequências. Mas assim caminha a humanidade. Estamos sensivelmente perdendo a essência do que vem a ser dignidade.

Em tempos corridos, para alcançarmos um objetivo, pouco importa o que sente o próximo. Muitas pessoas acreditam que somente o seu problema é relevante e digno de resolução, enquanto os problemas sociais, as dificuldades alheias, a desgraça do outro, são vistas como meros dissabores.

A inversão de valores e conceitos estão transformando as gerações mais novas, apodrecendo-lhes a esperança em algo melhor. Recentemente, recebi um vídeo em que uma jovem de dezoito anos, recém completados, presa por tráfico interestadual de drogas, zombava e menosprezava da situação de prisão em que se encontrava.

A moça em questão estudava em um dos melhores colégios particulares da cidade e vinha de uma família de classe média alta, fato por ela mesma confirmado. Em determinado momento da reportagem, a jovem canta um funk, e muito alegre diz que errou e que a vida é assim: “Em alguns dias a pessoa vence e em outras ela perde…”.

O que se vê, de maneira cristalina, é que aquela jovem não tem qualquer parâmetro de dignidade. Perdeu a essência. Não tem noção das suas ações, das responsabilidades e conseqüências advindas delas. Mas essa moça, aqui retratada à guisa de exemplo, também representa aquele que sai bêbado da balada e assume a direção de seu carro, sem pensar nos resultados. O que deixa de prestar socorro a alguém porque simplesmente não quer perder o precioso tempo, que a tudo é mais relevante. O que finge que não vê o erro e continua a cometê-lo. Enfim, a moça, relatada acima, apenas externou o que muitos hoje fazem como se certos fossem. Alguns, lado outro, dizem arrepender-se, quando são surpreendidos. Será? Por que não corrigiram antes? Em incontáveis ocasiões ouvi de pessoas que viviam do erro dizer que “é a primeira vez”. Não era!

Agregada a essa falta de “noção da realidade”, temos também aquela parcela de pessoas que acreditam que tudo deve ser muito fácil. Buscam um atalho e tentam passar por cima de tudo e de todos para se chegar aonde quer. Não se estuda mais, trabalho se confunde com emprego, o “correr atrás” foi ultrapassado pelo “vamos aguardar para ver como é que fica”. Isso é terrível!

Aprendi, desde cedo, com meus pais, que dignidade é coisa que vem de berço. Não se compra, não se vende. É a firmeza no caráter. É o propósito na construção de ideais. É o agir corretamente, sem tirar vantagens. É percorrer o caminho mais longo, ainda que mais penoso. É manter a serenidade ainda que pereça o mundo. Ser digno é algo sublime. Valores incalculáveis na esfera moral e espiritual revestem a trajetória daqueles que adotam esta postura. Precisamos fazer com que as ações de homens e mulheres dignas sejam aquelas que, de fato, mereçam a atenção das gerações vindouras.

Em suas reflexões poéticas sobre o desconcerto do mundo, Luís de Camões nos relega lições que se encaixam como luvas à idéia central proposta no texto:

“Os bons vi sempre passar / No Mundo graves tormentos; / E para mais me espantar, / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos”.

Eis o preço da dignidade. Se estiver disposto a pagar, aceite a cruz dos graves tormentos.

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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