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Cientistas mapeiam efeitos do zika em cérebros em formação

Trabalho permitiu identificar mais de 500 genes e proteínas alterados na infecção pelo vírus.

Os pesquisadores identificaram que o vírus age de diferentes formas
Os pesquisadores identificaram que o vírus age de diferentes formas

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Pesquisadores mapearam, pela primeira vez, os efeitos do vírus zika isolado no Brasil em neurosferas humanas, estruturas celulares que reproduzem o cérebro em formação. O trabalho permitiu identificar mais de 500 genes e proteínas alterados na infecção pelo vírus.

“É uma descoberta importante porque permite que pesquisadores do mundo inteiro entendam com mais profundidade como o zika age e possam encontrar formas de bloqueá-lo. O vírus pode matar a célula de diferentes formas. Mas agora a gente sabe, como num script, o que ele está fazendo. A pesquisa de quem estuda drogas que inibem infecção e replicação viral, se já se sabe qual é o script do vírus, fica muito mais fácil”, disse a neurocientista Patrícia Garcês, do Laboratório de Neuroplasticidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa.

O estudo, que reuniu cientistas da Universidade de Campinas, Instituto Evandro Chagas, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Instituto de Biologia da UFRJ, foi publicado pelo jornal científico PeerJ, em sistema de preprint (antes da revisão por colegas).

Os pesquisadores identificaram que o vírus age de diferentes formas. Ele interrompe o ciclo celular, impedindo as células de se dividir e de dar origem aos neurônios. Provoca danos no DNA da célula, que acaba replicando o próprio vírus no organismo. Por fim, o vírus leva as células à morte.

“A célula tem genes e proteínas para dar origem aos neurônios. Mas, como esses genes e proteínas estão desregulados pela ação do zika, isso acaba não acontecendo. O vírus manipula a célula a favor dele e utiliza toda a maquinaria celular para se autorreplicar. Ao perceber esses problemas, a célula inicia um processo de autodestruição”, disse ela.

As neuroesferas foram cultivadas com a presença dos vírus. Ao fim de 12 dias, não havia células porque todas entraram no processo de autodestruição. “Acreditamos que esse seja o mecanismo que cause a microcefalia porque essas células são as mães do neurônio. Os bebês com microcefalia quase não têm neurônios”, afirmou a pesquisadora.

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Para identificar os genes e proteínas afetados pelo vírus, os pesquisadores combinaram duas técnicas sofisticadas: transcriptoma (sequenciamento do RNA, em que é possível observar os genes) e proteômica (análise das proteínas expressadas na célula). Depois, os dados foram comparados com os de neuroesferas não infectadas pelo zika.

Genes que atuam na produção neuronal estavam sub-regulados. Já os genes relacionados ao reparo do DNA ou estavam suprarregulados (esses genes atuam além do que deveriam e acabam levando à morte celular). “Vimos muita proteína relacionada à replicação viral. Talvez seja a primeira coisa que o vírus faça na célula. Ele para tudo o que está acontecendo na célula e começa a replicar o genoma dele.”

Conhecer a dinâmica da infecção permitirá aos pesquisadores testar drogas que impeçam a ação do vírus no organismo. A cloroquina, droga já usada para malária, se mostrou promissora. “A cloroquina consegue bloquear a infecção antes do vírus entrar na célula. Também tem ação antiviral depois que o vírus entrou na célula, pois bloqueia a replicação viral. Por enquanto só temos teste em células, é importante salientar isso. Há artigos científicos, com testes em animais, que a cloroquina se mostrou tóxica. Precisamos ampliar os estudos”, afirmou.

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