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Coluna do Adilson Cardoso – Cortinas do meu pesadelo

Coluna do Adilson Cardoso – Cortinas do meu pesadelo

Me lembro bem, como se o acontecido fosse ontem, no final da tarde. Eu gostava de um litro de plástico com alguns amassados, em volta do seu corpo havia riscas feitos sulcos até o inicio da parte superior, sua tampa era vermelha e entre a boca do litro e ela se via um anel azul, naquele tempo não tivera a curiosidade de pensar que a tampa não era dele, pois lia claramente o nome de um refrigerante, ele era de água mineral, achava que todos os líqüidos tomados nele seriam mais saborosos. Agora também posso chegar à conclusão de que sua tampa verdadeira era da cor azul. Há fatos que quero esquecer, quero que minha história sem acontecimentos importantes não seja lembrada por coisas que não admito que aconteceram, levarei para o tumulo e para a eternidade onde minha alma cansada do lodo sofrimento descansará sem flagelos, pelo menos quero assim. Um destes fatos talvez eu possa ventilar sem muitos pormenores. Precisei roubar comida para não morrer de fome, era o ano de 1945, mês de dezembro, pouco depois do falecimento da minha avó, pessoa que mais amava na vida. Meu pai era bruto e, se guiava pelo álcool todas as noites quando vinha do trabalho. Morávamos próximo a fábrica onde ele e vários outros homens e mulheres cheirando a carne podre, trituravam ossos de animais para fabricar sabão. Uma sirene irritante quebrava o silêncio monótono três vezes ao dia, de manhã quando os operários chegavam, na hora do almoço e, à tarde exatamente às 18 horas quando findavam a jornada. Aquela ultima sirene era como a boca do demônio gritando no pior dos pesadelos, sabíamos que a tormenta estava para acontecer, o céu nublava e a lua mergulhava nas trevas, trovões e raios disparavam dentro da gente. Naqueles dias em que sofria a morte da mulher que era o baluarte da família e que enfrentava a ira dele para defender sua filha, minha mãe. Decidi não mais submeter às atrocidades caseiras, minha mãe havia saído para a casa de uma amiga com minha irmã de nove anos de idade, o intuito da visita era ver um jornal que falava das movimentações na Europa com a divisão da Alemanha e a falta de crença que muitos tinham no suicídio de Hitler, minha mãe temia que o genocida estivesse vivo e escondido no Brasil para recomeçar a Guerra Mundial. Eu peguei uma bolsa de couro cru presente da minha avó e disse a meus irmãos que se calassem sobre mim, iria embora para ganhar dinheiro e o dia que tivesse condições financeiras voltaria para buscá-los. Sai pisando forte com lágrimas nos olhos, as ruas tinham cheiro de vômito pela farra do natal ter sido despejada grande parte ao ar livre. Desejava ser como Lampião da forma que sempre ouvira contar, destemido, que enfrentava a “Volante” e fazia qualquer figurão prostrar aos seus pés, ou ele passava a Carabina, enfiava o punhal sem medo de o sangue jorrar.  Andei rápido para fugir das imediações da fábrica onde trabalhava meu pai, a sirene demoraria pouco mais de duas horas para o seu toque final, entrei em uma rua larga e poeirenta onde carros grandes passavam com imensas nuvens de fumaças, às vezes parava para não ser engolido, fumaça e poeira juntos e o risco de outro carro cego passar por cima de mim, havia vaqueiros aboiando sua reses e, mulheres com potes nas cabeças em busca de um riozinho que ficava a quilômetros para saciar a sede da família. Passei por uma cruz na beira de um barranco e desviei para o lado outro, dali fui andando e carregando comigo a imagem do sujeito morto naquela sequidão, um barranco de pequenas porções de terra vermelha e uma montanha de Tóa sustentando tudo, árvores secas de galhos retorcidos emolduravam o cenário de horror como se fossem pessoas esqueléticas fazendo a dança da morte. Talvez o pobre miserável tenha se perdido no meio da poeira e fora pisoteado por animais em disparada, ou um desses caminhões carregados de madeiras, ou quem sabe uma dessas Cascavéis que tocam seus chocalhos ao rigor do sol. Andei contando as estrelas com uma dor desalmada nos pés e uma vontade dúbia de continuar andando e voltar para casa, também tinha fome e sede. Meu pai no mínimo já estaria me procurando com seu hálito de cachaça, seu cheiro abominável de animal morto e olhos esbugalhados triturando minha mãe, meus irmãos por certo estariam deitados sob cobertores ralos e remendados. Não voltei, deixei a noite fugir deitado em baixo de um carro de bois, próximo ao quintal de uma casa que pude perceber com certeza que era moradia de um casal de velhos, já que os dois se acomodaram no sol que brotava tímido naquela primeira manhã da minha liberdade. Ela era baixinha usava lenço colorido e blusa de frio sobre o vestido longo e fofo, meias e chinelo de couro, ele também era um senhor baixo, usava boina de bico largo, blusa de lã, calça marrom e meias com chinelos de couro, tinha um radinho de pilha a mão que colocava próximo ao ouvido, o som não era de musica brasileira, ela retirou uma pedaço de pano do bolso e limpou o nariz. Não se via cães, um gato rajado de amarelo sujo andava no meio deles roçando seu rabo espesso. Eu continuava ali embaixo, camuflado sobre o cocô de bois, vacas e cavalos e gramas secas, observei o ambiente até que os dois adormeceram, suas cadeiras de balanços reforçaram para sustentar o peso dos corpos inertes. Passei então agachado sob um monte de lenha próximo deles e corri por trás da casa, forcei uma portinhola e entrei na cozinha, fui respirando o ar quente das brasas no fogão que era largo e tinha mais ou menos um metro e vinte de altura. A boca onde a lenha ardia se via acima três aberturas com duas panelas de ferro, destampei vagarosamente e senti um gostoso salivar provocado pelo cheiro de frango cozido em uma das panelas, a outra era de um arroz amarelo e estava pela metade, provavelmente alguém além deles havia jantado ali. Uma prateleira simples, algumas vasilhas de alumínio ficava ao lado esquerdo e um banco de madeira escura do lado direito, próximo ao fogão alguns sacos de milhos estavam com marcas de peso, provavelmente era usado para assento, um varal de carne seca se esticava em toda a pequena parede acima do fogão. Meticulosamente pequei uma panela de barro que estava na prateleira e coloquei do arroz e do frango, comi um pedaço ali mesmo com a mão e joguei uma colher do arroz na boca. Puxei uma cabaça que estava dependurada e enchi com a água do pote que ficava do lado de fora. Sai pelo mesmo lugar que entrei e ao chegar próximo ao monte de lenha que servira de escudo, o coração saltitou apavorado quando notei um homem alto com chapéu de vaqueiro, trajando calças de brim e camisas quase em farrapos, segurava um facão e conversava de cócoras com os velhos. O gato que no primeiro momento se mostrava pacifico e preguiçoso percebera minha presença se arrepiando como de costume em seus rituais de ojeriza com a mesma espécie, aquele gesto chamara atenção do velho que puxou o bico largo da boina para cima e se levantou. Tropecei numa pedra e para não cair segurei o galho de uma planta que se partiu fazendo barulho. O homem se alertara com seu facão em punho e os olhos surpresos se misturando a um ódio relâmpago, por trás de mim havia uma cerca com algumas aberturas a baixo, também um pequeno espaço que poderia passar sem a bolsa e a panela, o homem já estava próximo sem perguntar o que eu fazia ali, apenas rangia os dentes e direcionava o facão em diagonal, sua intenção era o meu pescoço, andando de costas, trêmulo e medonho pedi ao homem que perdoasse a minha intromissão, não havia roubado nada além da comida e a água que poderia pagar com algum serviço, ele gritou que eu pagaria em baixo da terra. Então vi aquela cruz da estrada, vi as árvores secas feito gente fazendo a dança da morte, o vi fomento a pedir clemência e seu corpo mergulhado em sangue por golpes daquele facão. Baixei como ultimo ato e peguei uma pedra branca pontiaguda, esperei que ele desse mais um passo, ao seu precipitar na minha direção, pensei novamente naquele sujeito sepultado em baixo da cruz, na solidão daquela estrada. Lancei com a força que tinha nos braços mirando sua cabeça, o choque da pedra com a cabeça dele gerou um ruído como dos ossos quebrando no dia em que entrei na Fábrica, meu pai usava um protetor de couro na frente, não havia cores definidas por estarem todas juntas, do sangue a falta de higiene dos operários até da cinza do cigarro… O facão caiu junto ao homem e um enorme buraco jorrava sangue acima do olho… O que veio depois foi uma sucessão de coisas boas e ruins que como eu disse antes, foi apenas um dos fatos que em poucos pormenores poderia narrar.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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