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Coluna do Adilson Cardoso – Ubiratan e Jurema

Coluna do Adilson Cardoso – Ubiratan e Jurema

Passava das nove horas da manhã e o sol ardia em mais um dia quente de abril. Ubiratan estava distante, pedia informação a um policial que patrulhava a praça. Jurema estava  perdida numa viagem  subjetiva no interior das folhas de uma Quaresmeira-rosada, um transe natural,  levantava  as duas mãos e imitava o vôo de um beija-flor Rabo-de-tesoura que se aproximava sem receio da  heliconia poucos metros a sua frente. O traje e a pintura indígena chamaram atenção de duas senhoras que juntavam o lixo derramado  abaixo da lixeira, uma delas era branca,  pouca estatura  e gorda,  usava chapéu de pano com uma cordinha amarrada  sob o queixo, em um semicírculo se lia na parte frontal “Spider Man”, seus   óculos embaçavam com o calor  e ela insistentemente  teimava  em limpar, aparentava cinqüenta e poucos anos, a calça estava apertada, mas  sem  dificuldades expunha o rêgo da bunda ao menor esforço, quando  a suspendia  olhava aflita para os lados na intenção de coibir qualquer insinuação das suas intimidades. A outra era negra, alta e muito magra, seu rosto estava  marcado por manchas esbranquiçadas, talvez fosse o resultado de algum protetor solar de má qualidade. Faltavam-lhe dois dentes na frente, o uniforme era ajustado, mostrando com fidelidade que em qualquer posição que se encontrasse veria-se ali uma figura lisa sem peitos ou nádegas das voluptuosas da sua cor, era como um tronco fino a deambular arrastando aquela  vassoura. “Trago a pessoa amada em 24 horas” A baixinha leu em voz alta o que dizia um panfleto pregado no poste, à companheira parou soletrando em silêncio com um sorriso tosco denunciando a falha dos dentes, disse quase  sem abrir a boca “Vou ver se traz mesmo!”. Ubiratan vinha com dois pães recheados de mortadela e um suco dentro de um saco transparente, o amarelo ralo do liquido era capaz de mostrar no seu interior o canudinho branco com listras vermelhas transversais, Jurema recebeu com sorriso e apontou displicente para outro beijar-flor que rondava a heliconia. Enquanto  comia com ânsia bruta de quem tem fome há muitos dias, ele abria uma esteira de um verde desbotado junto ao banco onde estavam, com extrema delicadeza retirou colares de côco de tucum e de dente de macaco, adorno de resina para lábios e plumários para cabeças e braços do interior de um balaio redondo. Ao findar o seu breve lanche Jurema juntou-se ao marido e esticou as pontas da esteira que estavam dobradas, retirou um bruxo de barro e acendeu um incenso de “Flor de Laranjeira” sob o aroma da fumaça levantou-se iniciando  a dança da prosperidade, na boca uma flauta de madeira exalava o som que remetia a tribo, pessoas curiosas passavam olhando, às vezes voltava e adquiria algum objeto, outros faziam o sinal da cruz como se visse o demônio e passavam com a cabeça baixa. As horas corriam e a sede os obrigava a mergulharem a boca a  cada trinta minutos em uma pequena torneira de onde saia uma  instrumentos metálico  que girava jorrando  água em todos  os arredores. Um homem  do outro lado da praça observava o movimento dos índios anotando em sua prancheta, cada vez que alguém se aproximava e adquiria alguma coisa ele fazia um X e continuava anotando, trajava calça azul e camisa branca, usava colete com o brasão da prefeitura municipal, um letreiro nas costas onde se lia “Fiscal de Postura”. Quando Ubiratan olhou para o céu e viu que já passava do meio dia contou algumas notas que tinha no bolso e saiu em busca de comida, mas antes entregou a Jurema aquelas que escondia numa espécie de lenço de folha trançada, imediatamente ela depositou na bolsa colorida que trazia junto ao corpo. Na esteira restava apenas um Cocá de pena de Arara Vermelha, mas já haviam conseguido o que precisava para os próximos dias de sustento. O homem que anotava na prancheta aproximou-se dela sem ser percebido, não disse nada e sentou-se ao seu lado, olhando seu corpo moreno de pernas e barriga descobertas, disse que era da Prefeitura e para se trabalhar ali precisaria pagar um taxa, Jurema tímida e temerosa olhou em todas as direções em busca do marido, mas o homem intimidava e queria o seu pagamento. Acuada sem outra alternativa a índia mergulhou a mão dentro da bolsa para retirar o dinheiro quando o homem segurou fortemente o seu punho. Jurema resistiu, puxou imediatamente com  força de guerreira Kamaiurá, mas os olhos dele estacionaram nas  pernas dela, assim como  o outro destino da sua mão que desceu sorrateiramente para tocá-la no ventre, ao sentir aquela agressão, um grito dentro de si a levou para o centro da aldeia onde a grande e sagrada voz do Pajé ordenou que houvesse resistência, que jorrasse sangue pela desonra e, ela respondeu simultaneamente com um golpe de faca naquele  antebraço, quando ele se deu conta do ferimento e do sangue que escorria buscou amparo na  outra mão em comprimindo o local, mas Jurema já tinha em seu corpo o espírito da voraz onça pintada e com grande agilidade saltou para a traz e coloriu o rosto com o vermelho do urucum onde já se via as pintas negras Da fruta do jenipapo, no chão pingava o sangue do agressor que a fez ainda mais sedenta de vingar, ela atacou novamente no outro braço, pessoas sem entenderem o que acontecia juntavam-se para assistir ao  ritual  imposto  pelos espíritos da Selva no corpo daquela mulher, o homem gritava desesperado consumido pela hemorragia. O policial que rondava a praça chamou reforços e uma ambulância para o Fiscal que já havia levado mais dois golpes, um deles no pescoço sem  chances de sobrevivência. Confirmado o óbito. Ubiratan só chegou com um marmitex de comida quando a mulher era algemada e resistia em ser levada, mas os espíritos se apossaram também dos corpos transeuntes que viram toda a cena e ficaram ao lado dos dois, houve  confronto com a policia, algo como nunca se vira na história das contendas,  enquanto os policiais ameaçavam  atirar com balas de borracha pedras lhes atingiram nas cabeças e suas armas foram tomadas, sem condições de enfrentamento cada um decidiu fugir para um lado, enquanto Jurema e Ubiratan desapareceram no meio da multidão. Antes que o crepúsculo engolisse toda a luz do dia os dois desceram nus na velha  Piroga com cheiro de peixe, ele se equilibrando de pé e ela absorta, ajoelhada  respirando o perfume da floresta.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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