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Coluna do Vasco Vasconcelos – Salve Santo Antônio, São João, São Pedro e as tradições nordestinas

Coluna do Vasco Vasconcelos – Salve Santo Antônio, São João, São Pedro e as  tradições nordestinas

E com tristeza que percebo que os brasileiros não sabem preservar  sua cultura, o seu folclore, enfim as tradições nordestinas. É mês de junho: Mês das festas de Santo Antônio, São João, São Pedro e das noites felizes de folguedos nordestinos. 

Como é notório, com o avanço da internet, o modismo, assomado o surgimento dos ídolos de barro, a ganância pelo  lucro farto e fácil, com músicas descartáveis, vêm contribuindo para queda vertiginosa da nossa identidade cultural, corroborando assim com perda do nosso patrimônio cultural, notadamente nossos costumes, nossas tradições, nossas músicas que embalaram gerações, não obstante o nosso folclore está agonizando.

Ainda recordo quando criança no interior da Bahia ficávamos na expectativa da chegada do mês de junho. Dia 13 comemorávamos o dia de Santo Antônio, padroeiro da minha pacata cidade de  Paratinga-BA, localizada no oeste da Bahia vizinha à Bom Jesus da Lapa. Época em que nossos humildes pais trabalhadores rurais, nos presenteavam com roupas novas, sapatos novos, sem olvidar da  tradicional foto de família, uma vez que os fotógrafos eram sazonais, ou seja só apareciam naquela época do ano.  Até hoje relembro quando ganhei minha primeira calça comprida, onde estreei na minha primeira dança de quadrilha junina. É bom diferençar quadrilha de São João, das quadrilha que nos últimos vinte anos vem saqueando o país dos desgraçados.

Tinha alvorada com a centenária Filarmônica 13 de Junho uma das melhores filarmônicas do país,  comidas típicas da região;  também tinha a noite dos legionários, noite das crianças, noites dos funcionários, noites dos negociantes, noites dos motoristas (ciclistas e motoqueiros), noite dos  músicos, noites dos  lavradores, noites dos artistas, noites das casadas, noite das moças e  dos rapazes.

Cada noite tinha um responsável pela a alvorada e ao escurecer após a missa,  seguia  em procissão para a casa do mesmo encerrando assim  a festividade daquela reza com comidas e bebidas.  Cada dia da trezena era dedicado a uma parcela da população local, costume de todo ano enfim todas as categorias dos trabalhadores eram lembrados e  festejados.

Também no mês de junho dias 24 e 29, festejos de São João e São Pedro, respectivamente, eram só alegria. Segundo os historiadores, as festas juninas começaram ser comemoradas na Europa, com a finalidade de comemorar a temporada das colheitas.

Não poderia faltar comidas típicas, arroz doce, amendoim doce e salgado, batata doce, bolo de amendoim, bolo de cenoura, bolo de fubá, bolo de milho com chocolate, bolo de milho com coco, bolinho de mandioca, bolo de milho verde, bolo de pinhão, bombocado, broa de fubá, cachorro quente, cocada, canjica, cuscuz, doce de leite, doce de abóbora, maça do amor, milho cozido, pipoca com manteiga, pipoca doce, paçoca, pamonha, pé de moleque, pinhão cozido, quentão, torta de banana, vinho quente,  curau, pamonha, cuscuz, fufu, milho cozido, pipoca doce e salgada enfim uma variedades e doces de milho, além, é claro do arretado quentão.

Brincávamos quadrilhas ouvindo as eternas canções juninas, festas essas trazidas para o Brasil pelos portugueses, com fortes influências dos espanhóis, holandeses e franceses, as quais deram origem a outros eventos nas demais regiões do Brasil. As misturas de raças, etnias entre índios, africanos e europeus fizeram brotar no país uma série de esplêndidas expressões artísticas, como cantorias de viola e cordéis; emboladas de coco e cirandas; xote, xaxado e baião, sem falar nas quadrilhas e forrós.

Relativamente às quadrilhas apresentadas ao ar livre, nos arraiais as quais imitavam casamentos de matutos, à beira das fogueiras, com fogos de artifícios, envolvendo, claro, noivo, noiva, pai da noiva, sacristão, juiz de direito e delegado, ou seja uma dança salão à moda francesa, onde os casais  dançavam tendo o fundo musical o cantador acompanhado da velha sanfona, triangulo, tambor, etc. Os dançarinos obedeciam a um narrador, cujo espécie de mestre de cerimônia, narravam em francês a exemplo das palavras “ balancer”, (balancê) ” ou seja balançar o corpo. “Anavantur” (en avant tout) e “anarriê” (en derrière) e  no encerramento utilizava a expressão, c’est fini don de casais que se despediam acenando para o respeitável público. E tudo isso ficou na lembrança. Fico imensamente feliz quando vejo que as cidades de Campinas Grande na Paraíba e Caruaru em Pernambuco ainda não perderam os embalos das festas juninas e continuam disputando qual o melhor São João do País?

Porém é triste saber que em face da ganância, do modismo, do lucro farto e fácil, estão  destruindo aos poucos o nosso folclore, as nossas tradições nordestinas, enfim a nossa cultura musical, contratando cantores de outras plagas cujas músicas não tem nada a ver  com as saudosas cantigas de São João: O forró, o baião, o xaxado (..). Sinto saudades das músicas: Olha pro céu, O Sanfoneiro Só Tocava Isso, Marcando a Quadrilha, Antônio, Pedro e João,  Sonho de Papel, Chegou a Hora da Fogueira, Pula a Fogueira, Isto é Lá com Santo Antônio, Quadrilha Brasileira, Fim de Festa, Olhinhos de Fogueira, Leito da Saudade ,São João na Terra (…) enfim cedendo espaço para o lixo musical que está tomando conta das programações  das rádios e tevês, deixando de lado canções de Luiz Gonzaga, Zé Dantas, do paraibano Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Marines, Dominguinhos, Anastácia, Elba Ramalho, Trio Nordestino, as bandinhas de pífano,(…),   estão ficando para o segundo plano,  numa verdadeira  inversão de valores.

É sabido que essas tradições, as festas juninas aos poucos estão desaparecendo nos rincões do país, porque as músicas de hoje não são as mesmas do passado. Isso requer dos nossos secretários municipais de cultura do norte e nordeste, bem como dos organizadores e patrocinadores  de tais eventos, maior respeito com o nosso folclore, com as nossas tradições nordestinas. Tratam-se de celebrações sendo que tais contribuições eruditas oriundas de diversos povos que se estabeleceram em nosso país e hoje aos poucos estão desaparecendo em face do escrúpulo comercial.

Nosso país é rico com suas manifestações culturais as quais têm que serem preservadas. O modismo já ceifou o nosso carnaval de outrora. As marchinhas de carnavalescas  já não são mais tocadas nas rádios e  nas tevês, enfim nos festejos de momo e em seu lugar quedou o lixo musical que nos envergonha.

Salve Santo Antônio, São João, São Pedro e as tradições nordestinas! Temos o dever moral e cívico de proteger o nosso folclore, as nossas tradições a nossa cultura enfim as nossas raízes musicais. O lixo musical que está ocupando as programações das rádios e tevês que exterminou as tradicionais marchinhas carnavalescas não pode exterminar as cantigas de São João, razão  porque a população do nordeste não aceitou os altos cachês  a certos cantantes que não acrescentam nada às tradições nordestinas, pelo contrário destroem nossa cultura musical. Estão torrando o dinheiro que o país não tem para investir no social em coisas que a população carente  nordestina não precisa.

As vezes fico devagando: Diante do lixo musical que nos envergonha, questiono: Que lembrança musical a nossa juventude lembrará no futuro?  Como eram bonitas as canções que marcaram minha infância!  Então vamos cantar: São João na roça composta em meados de 1952 por Luiz Gonzaga e Zé Dantas: A fogueira tá queimando/Em homenagem a São João/O forró já começou/Vamos gente, rapapé neste salão/(…)Traz a cachaça, Mané/Eu quero vê, quero vê páia voar.

Destarte temos o dever moral e cívico de preservar  nossa cultura, as nossas músicas sem  modismo, isso porque  nosso país é rico em termos culturais haja visa que é por meio dessas manifestações folclóricas que possamos manter acesas nossas  tradições e costumes do nosso  povo, preservando assim nossa história, nossos costumes para gerações futuras, dando exemplo de cidadania, civismo,  e alto espírito de brasilidade.

Por tudo isso exposto  vamos cultuar os rituais trazidos pelos portugueses, espanhóis, holandeses e franceses, os quais deram origem a diversos tipos de celebrações em diversas regiões do Brasil. Graças a miscigenação étnica entre índios, africanos e europeus fez nascer e nosso país centenas expressões artísticas, como cantorias de viola e cordéis; emboladas de coco e cirandas; xote, xaxado e baião, sem falar nas quadrilhas e forrós.

Um país como o Brasil verdadeiro celeiro de cantores e poetas que tem como ícones da legítima Música Popular Brasileira de Qualidade – MPBQ, gênios como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Anastácia, Noel Rosa, Ismael Silva, Dorival Caymmi, Moacir Franco, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ary Barroso, Pixinguinha, Tom Jobim, Vinicius de Morais, e tantos outros, não pode ficar inerte, temos que reagir a altura dessa barbaridade rumo resgatar a nossa MPBQ, ou seja a nossa verdadeira cultura musical.

E como dizem os internautas: “Infelizmente hoje se alguém quiser virar “cantor” basta fazer um vídeo com mulheres gostosas, colocar uma, duas ou três palavras chaves: Tchu tcha tcha, tche tche tche re re isto em qualquer ritmo e pedir pra algum jogador de futebol famoso dar umas reboladinhas no campo  e  pronto. O sucesso está garantido.  No dia  seguinte todos os programas dominicais estarão disputando o novo ídolo de barro do Brasil. Afinal acaba de chegar no mercado mais um produto descartável e sem qualquer selo de qualidade”. Saibam Senhores que ídolo  de barro cai e quebra, não obstante, destrói  as nossas raízes musicais.

Vasco Vasconcelos, escritor e jurista

Brasília-DF

Vasco Vasconcelos
Vasco Vasconcelos

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