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Coluna do Adilson Cardoso – Sob as Sombras da Dor (parte l)

Coluna do Adilson Cardoso – Sob as Sombras da Dor (parte l)

Dona Geralda absorta no retângulo da pequena janela de madeira, o calor do fogão lhe aquecia, a chuva fina caia desde o inicio da madrugada. Com um crucifixo de madeira dependurado no pescoço seguia o ritual de apertar as bolinhas divididas em orações. Um olho se prendia na beleza verde das hortas medicinais ao longo do quintal, outro pendurava no telhado marrom esbranquiçado da fazendo de Antonio Mulungu, respeitado e querido por ser o responsável pela cooperativa e pela ajuda que prestava aos necessitados da vizinhança. O caldeirão já dava sinais de cozimento, ela destampou fez a prova com língua e viu que o feijão não era mais preocupação, tirou também a tampa do arroz e cuidadosamente colocou na marmita, a mistura era a pele de porco e o ovo caipira, das quatro pimentas malaguetas verdes nem da garrafa de pinga Seu Osório não abria mão, estava pronto, a cabaça cheia de água e o facão afiado dependurado na perna, era tudo que necessitava para mais uma jornada. A filha estava na parede da sala sorrindo acanhada com seu vestido azul, naquele dia havia sido batizada na igreja católica, em outra foto aparece com os padrinhos e os pais, fotografias que Dona Geralda cuidava com apreço desde o seu desaparecimento. Adelaide estava prestes a completar quinze anos de idade, quando sem o consentimento dos pais fora conhecer a cidade de Riacho dos Coqueiros, as ultimas noticias que tiveram dão conta de que pegara o ônibus sozinho e ao descer um casal a esperava, a mulher se vestia simples com uma camisa vermelha e preta de um time de futebol do Rio de Janeiro e o homem usava uma blusa amarela de malha e um shorte branco. Adelaide era ingênua, mas muito sonhadora e não aceitava a posição autoritária do pai sobre ela como fazia com a mãe. Dona Geralda era proibida de sentir saudades, “Se chorar por quem não vale nada, vai apanhar para chorar com gosto!” estas eram as palavras diuturnamente repetidas por Osório desde o sumiço da filha, quando notava a mulher olhando em demasia para as fotos. Sem dizer bom dia Seu Osório entrou fumando o cigarro de palha com a espingarda no ombro tinha lama nos pés e um Coelho morto numa das mãos, o piso verde de cimento velho da cozinha mostrou as marcas das pegadas quando ele virou-se e saiu sem dizer nada. Um jato asqueroso de fumaça pairou por alguns segundos até desaparecer com ele. Os olhos de Dona Geralda conservaram renitentes sobre aquelas pegadas em forma de barro e, lagrimas pingaram, a saudade da filha que desatinava sempre que ele saia chegou com força acumulada, o choro do dia anterior que fora forçada a silenciar explodia feito os trovões de setembro. Chorava preocupada com a volta repentina, chorava pedindo as Santas e apertando o crucifixo contra o peito, queria que a filha voltasse já se passavam três meses sem noticia alguma. Os outros dois filhos maiores trabalhavam na Cooperativa do velho Mulungu e nos dias de chuva não se atreviam subir a ladeira da encosta, já que tinham hospedagens e alimentação. Após os rastros de lama ser limpos Dona Geralda ainda presa pela magia da janelinha, descobriu uma linda ave a saltitar no mourão da cerca, com uma espécie de capim no bico ela pulava numa cavidade da madeira e depositava a pequena folha, não havia duvidas de que se tratava de um ninho, que aquela era uma mãe de penas amarelas e vermelhas, também não poderia lhe restar duvidas de que a filha não deveria continuar sem paradeiro, enquanto o pássaro alegremente saltava cuidando do seu filhote ela tristemente não poderia fazer o mesmo, a filha tão pequena, indefesa, a pouco começara ganhar formas de mulher no corpo, os seios ainda eram pequenos e rígidos as espinhas na testa, os ralos pêlos pubianos, e, o primeiro bater forte daquele pequeno coração, ela não acompanharia, não daria conselhos tampouco ouviria as confissões. Dona Geralda estava paralisada ali na sala, presa na dor da saudade visgada nos olhos da filha, seus sentidos não descuidava de Adelaide mesmo parada ali na parede dizia alguma coisa, muitas coisas em códigos que só coração de mãe consegue decifrar, pedia socorro, dizendo que estava em algum lugar deste mundo clamando por ela…

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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