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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – Uma vida sem inimigos

Coluna do Dr. Marcelo Freitas – Uma vida sem inimigos

Já parou para pensar o quanto a vida é feita de paradoxos? Alegria e tristeza, guerra e paz, alto e baixo, noite e dia, vida e morte, amigos e inimigos. É, assim, de opostos que se formam nossa estrutura terrena. Com efeito, não há um só ser humano que passou por essa vida sem trilhar por caminhos antagônicos.

Quero, aqui, enfrentar um tema que pode parecer espinhoso. Mas não se deve abdicar de uma causa pela dificuldade da travessia! Podemos ter uma vida apenas de amigos? Será essa realmente a melhor escolha?

Há pessoas que se gabam de não possuir nenhum desafeto, qualquer opositor, enfim, nenhum inimigo. Chegam a estufar o peito para reverberarem a façanha. Afinal, estariam a cumprir à risca os desígnios Cristãos. Será mesmo verdade?

Caro leitor, a primeira coisa que um ser humano deveria aprender é a diferença entre o bem e o mal, e jamais confundir o primeiro com inércia, passividade e subserviência. O mundo passa por situações de extrema covardia, maldade, violência aos direitos mais elementares de seres indefesos. Ruy Barbosa verberava que “o ódio ao mal é amor do bem, e a ira contra o mal, entusiasmo divino. Nem toda ira, pois, é maldade… Então, não somente não peca o que se irar, mas pecará não se irando… É a hora das responsabilidades, a hora da conta e do castigo, a hora das imprecações, quando a voz do homem reboa como canhão e as siderações da verdade revolvem o chão coberto de vítimas e destroços incruentos. Eis aí a cólera santa, eis aí a ira divina! Quem, senão ela, há de expulsar do templo o renegado? Quem, senão ela, expulsar da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Quem, senão ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão ela, varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão público? Quem, senão ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituição política, a tirania?”

Bem sei que não adianta acender as luzes se o insensato optou por viver na escuridão! Nunca me passou pela cabeça, desta maneira, a possibilidade de omissão ante aquilo que considero errado. Ainda que, para alterar a realidade ao nosso redor, tenha que amargurar sensíveis perdas, inclusive dos amigos que um dia caminharam conosco. Não é possível agir com indiferença diante das mazelas que afligem os “coxos” de consciência. Aqueles que, mesmo sendo as principais vítimas da hostilidade, não apresentam forças para reagir.

A condição negativa do mundo atual se relaciona muito mais à omissão dos bons que à ação dos maus, que fique claro. Quando um silencia, de maneira inversamente proporcional, o outro avança. “A omissão de quem pode e não auxilia o povo, é comparável a um crime que se pratica contra a comunidade inteira”, já nos ensinava Chico Xavier.

No Evangelho de Lucas 6:27-29, Cristo nos relega as seguintes considerações a respeito do abrolhoso tema que aqui se busca enfrentar: “Ame seus inimigos, faça o bem para aqueles que te odeiam, abençoe aqueles que te amaldiçoam, reze por aqueles que te maltratam. Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”.

A lição que aflora da “boa nova”, embora possa soar pouco puritana, é de clareza solar: Jesus Cristo nos exortou a amar nossos inimigos! Ele nunca nos disse que não devemos ter inimigos! Uma pessoa sem inimigos, assim, é forçosamente alguém que nunca lutou por nada nessa vida! “A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre”, já dizia Oscar Wilde.

Não faço aqui, por óbvio, uma loa à inimizade. Mas rejeito uma vida sem contestações, sem irresignações. O mundo se transforma a cada dia, tornando-se um pouco menos tirânico, a partir da ação de inconformados. A paz e a tranquilidade que tanto almejamos sempre custou muito caro a alguns abnegados que jamais deixaram de vigiar. Não sem dor, sofrem, justamente por isso, todas as formas de perseguição.

É preciso, por conseguinte, nascer de novo. Fazer e refazer o que ainda está errado. Rever pontos de vista. Lutar pelo correto, ainda que isto nos conduza ao amargo percurso da ojeriza, da aversão, da antipatia, por vezes, da execração pública. É nas palavras de José Saramago, destarte, que encontro razões para concluir: “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: ‘Não há mais o que ver’, saibam que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre”. É preciso seguir adiante! Ver além do horizonte! Coragem!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
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